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quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

A Inovação em Fármacos: Novos Fármacos lançados em 2012

 

          Tenho lido aqui e ali, em diversos periódicos científicos, renomados e prestigiosos, artigos de diferentes autores, de diferentes especialidades, atuantes na academia e também nas empresas farmacêuticas que inventam fármacos, sobre a grave situação vivida pelas empresas no que tange à sua capacidade de inovação farmacêutica.[1]  Afirmam uns e outros que a despeito do crescente custo que a atividade de pesquisa, desenvolvimento e inovação, tem observado na indústria, atribuindo-se ca. 10-12% do faturamento total o montante de investimentos nesta atividade, não tem havido contrapartida adequada da indústria em termos da capacidade inovadora, quando medida pelo número decrescente de novos fármacos lançados anualmente, na última década especialmente.[1] Esta situação, inversamente proporcional ao aumento do investimento feito nesta atividade, tem suscitado inúmeras explicações e várias razões possíveis. Depois de ler uma enorme quantidade de explicações sobre este fenômeno,[1] que demonstra uma possível e severa crise de criatividade ou competência no setor farmacêutico mundial, passei a monitorar o site da agência regulatória norte-americana,  Food and Drug Administration (FDA) para detectar o número de novos fármacos lançados ao longo de 2012, as classes terapêuticas a que pertencem, o nível de inovação radical que representam, a partir do alvo em que atuam e o mecanismo molecular de ação. Esta análise indicou que, em 2012, foram 39 novos fármacos introduzidos no principal mercado farmacêutico mundial, superando o número de novas entidades químicas introduzidas no ano anterior.[2]Este aumento no número de novos fármacos lançados em 2012, pode sugerir uma possível recuperação na capacidade inovadora das grandes empresas farmacêuticas. Nesta postagem, descrevo alguns novos fármacos que surgiram no mercado em 2012, selecionados dentre aqueles mais inovadores do período.
        Apixaban (EliquisR)
         Apixaban (International Nonproprietary Name; INN) é um anticoagulante, para a prevenção de tromboembolismo venoso e tratamento e prevenção desta doença. Atua como antagonista direto do fator Xa e foi aprovado na Europa desde maio de 2012 e pelo FDA em dezembro do mesmo ano com a indicação de reduzir o risco de coágulos sanguíneos em AVCe embolia sistêmica, em pacientes com fibrilação atrial não provocada por problema na válvula cardíaca.  Este fármaco foi desenvolvido numa joint venture da Pfizer e da Bristol-Myers Squibb, ambas empresas norte-americanas.
          O apixaban (1) tem um padrão molecular inovador, pertencente à classe dos derivados di- hidropirazolo[5,4-c]piridina-3-carboxamida, diferenciando-se de um outro antagonista do fator Xa, anteriormente descrito, o rivaroxabano (2; BAY 59-7939; XareltoR) comercializado pela Janssen Pharmaceutica e pertencente à classe dos compostos oxazolidinodiônicos.
Juxtapid (LomitapideR)
          Em 21 de dezembro de 2012, o FDA (Food and Drug Administration) dos  EUA aprovou juxtapid (3) com a indicação de ser um fármaco antilipêmico capaz de reduzir a lipoproteína de baixa densidade (LDL), colesterol total, apolipoproteína B e não-lipoproteína de alta densidade (não-HDL), em pacientes com homozigose hipercolesterolemia familiar (HFHo). HFHo é uma condição hereditária rara, que faz com que o organismo se torne incapaz de remover o colesterol LDL, muitas vezes chamado de colesterol "ruim", fazendo com que atinja níveis anormalmente elevados deste tipo de colesterol circulante, aumentando o risco de acidentes cardiovasculares.
          Nos Estados Unidos, HFHo afeta cerca de um milhão de indivíduos que têm severamente reduzido a expectativa de vida, sendo que alguns especialistas atribuem o limite máximo de 30 anos de vida. Este fármaco que representa uma inovação terapêutica face à única indicação que tem, sendo recomendado para uso em combinação com dieta de baixo teor de gordura e redução de lípidos. O mecanismo de ação previne a formação das partículas lipídicas que dão origem a LDL. Alguns efeitos adversos identificados referem-se a diarréia, náuseas, vômitos e dor abdominal. O juxtapid é comercializado pela Cambridge, Massachusetts Co e foi desenvolvido pela Aegerion Pharmaceuticals Inc.
Ponatinibe (IclusigR)
          Ponatinibe (4, Iclusig, AP24534) é um fármaco aprovado pelo FDA em dezembro de 2012, pertencente a classe dos derivados imidazo[1,2-b]piridazina, indicado para o tratamento oral da leucemia mielóide crônica (LMC) e leucemia linfoblástica aguda (LLA). É um inibidor multi-alvo de tirosina-quinase (TK). Algumas formas de LMC estão relacionadas a mutação em T315I e se tornam resistentes às terapias atuais realizadas com outros inibidores de TK, como o imatinibe.[3] O ponatinibe foi aprovado para uso por pacientes com LMC resistentes ou intolerantes a outros tratamentos, baseado nos resultados de ensaio clínico de fase II. O alvo principal para ponatinibe é o controle da proteína BCR-ABL, uma tirosina-quinase anormal envolvida na LMC e LLA que caracterizam-se por uma produção excessiva e desregulada de células brancas sanguíneas pela medula óssea devido a uma alteração genética que a produz.[4] Esta proteína é detectada em 95% dos pacientes com LMC que têm sido tratados com o nilotinibe e/ou dasatinibe[4] e também podem se tornarem resistentes.
Tofacitinibe (XeljanzR)
            Tofacitinibe (5, XeljanzR, CP-690550), também denominado tasocitinibe  é um fármaco desenvolvido pela Pfizer de estrutura química extremamente simples, para o tratamento da artrite reumatóide (AR), psoríase, doença inflamatória do intestino e outras doenças inflamatórias crônicas degenerativas de fundo imunológico. Tem sido recomendado também na prevenção da rejeição de órgãos transplantados devido as suas propriedades imunomoduladoras.           
Em novembro de 2012, o FDA dos EUA o aprovou para o tratamento da artrite reumatóide, sendo o primeiro inibidor da quinase Janus 3 (JAK3), o que representa um novo mecanismo farmacológico de ação e portanto uma autêntica inovação terapêutica. Atuando ao nível desta quinase, interfere com a via de sinalização de JAK-STAT, responsável pela sinalização da informação extracelular para dentrodo núcleo da célula, afetando a transcrição do ADN .
            Recentemente, foi demonstrado em modelo murino de artrite que o  tofacitinibepropiciou sensíveis melhoras no quadro artrítico impedindo a produção de mediadores inflamatórios e suprimindo STAT1 notecido articular. Esta eficácia neste modelo de doença, está relacionada com a inibição de duas vias de sinalização, a saber JAK1 e 3, o que sugere a este fármaco um perfil de ação dual que pode ter efeitos terapêuticos altamente benéficos no trtatamento da AR.
            Obrigado por lerem!
_______________________
[1] Mullard A., 2010 FDA drug approvals, Nature Rev. Drug Discov. 2011, 10, 82; Swinney, D.; Anthony, J. How were new medicines discovered? Nature Rev. Drug Discov. 2011, 10, 507; Scannell, J. W. et al., Diagnosing the decline in pharmaceutical R&D efficiency, Nature Rev. Drug Discov. 2012, 11, 191; Pammolli, F. et al., The productivity crisis in pharmaceutical R&D, Nature Rev. Drug Discov. 2011, 10, 428; Paul, S. M. et al. How to improve R&D productivity: the pharmaceutical industry’s grand challenge, Nature Rev. Drug Discov. 2010, 9, 203; Hughes, B. Harnessing open innovation, Nature Rev. Drug Discov. 2009, 8, 344; Munos, B. Lessons for 60 years of pharmaceutical innovation, Nature Rev. Drug Discov. 2009, 8, 959.
[2] Para ler sobre algumas inovações terapêuticas recentes veja a postagem de sexta-feira, 31 de agosto de 2012.
[3] Huang, WS; Metcalf, CA; Sundaramoorthi, R; Wang, Y; Zou, D; Thomas, RM; Zhu, X; Cai, L. et al.,Discovery of 3-2-(imidazo[1,2-b]pyridazin-3-yl)ethynyl-4-methyl-N-{4-(4-methylpiperazin-1-yl)methyl-3-(trifluoromethyl)phenyl}benzamide (AP24534), a potent, orally active pan-inhibitor of breakpoint cluster region-abelson (BCR-ABL) kinase including the T315I gatekeeper mutant". J. Med. Chem. 2010, 53, 4701. [doi:10.1021/jm100395q]
[4] Para ler sobre os tinibes no tratamento do câncer veja a postagem de terça-feira, 5 de junho de 2012.

sábado, 17 de novembro de 2012

A Escola de Verão em Química Farmacêutica Medicinal*

* Realizada pelo LASSBio® / UFRJ desde 1995.

     Esta postagem tratará de documentar, ainda que de forma sumarizada, a história da Escola de Verão em Química Farmacêutica Medicinal (EVQFM) que em 2013 chegará à sua décima nona edição, ininterrupta desde 1995. Trata-se de registrar a motivação e criação desta atividade de extensão, iniciada em 1995, pelo Laboratório de Avaliação e Síntese de Substâncias Bioativas (LASSBioR, www.farmacia.ufrj.br/lassbio) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) que visa atualizar ou reciclar os conhecimentos em uma disciplina essencial ao completo conhecimento dos efeitos dos fármacos e medicamentos.

 
Preâmbulo – O surgimento da Química Farmacêutica Medicinal
      Cabe neste início relembrar as origens da Química Farmacêutica Medicinal e sua missão definida anos após pelo Subcommittee on Medicinal Chemistry and Drug Development da Chemistry and Human Health Division (VII) da International Union of Pure and Applied Chemistry (IUPAC)[1] como: a disciplina que estuda os aspectos relacionados à descoberta, invenção e preparação de substâncias bioativas,de interesse terapêutico, e os fatores moleculares do modo de ação dos fármacos, incluindo a compreensão da relação entre a estrutura química e a atividade (REA ou SAR) terapêutica, absorção, distribuição, metabolismo, eliminação e toxicidade.
      Podemos dizer que a Química Farmacêutica Medicinal nasceu, em 1911, no Instituto Pasteur, mais precisamente no Laboratoire de Chimie Thérapeutique, criado por Ernest Fourneau, sob a direção de Emile Roux. Fundado com a missão de inventar substâncias de interesse terapêutico, neste laboratório Fourneau contou com a colaboração de eminentes cientistas da época como Jacques Tréfouël (1897-1977) e sua esposa Théreze Tréfouël (1892-1978), além de Germaine Benoit (1901-1983), Federico Nitti (1903-1947) e Daniel Bovet (1907-1992), que veio a ganhar o prêmio Nobel de Medicina em 1957 pelo conjunto de seu trabalho realizado com as sulfonamidas, anti-histamínicos e também com o curare. Data desta época, o primeiro trabalho científico que pode ser considerado como tratando da relação entre a estrutura química e a atividade, precisamente em derivados do curare amazônico, estudado por Bovet.[2] Neste laboratório, que se tornou referência da disciplina, foi descoberto o stovarsol (TreparsolR, CAS 97-44-9) como um poderoso agente anti-sífilis. Esta substância contém em sua estrutura um átomo de arsênio oxigenado copiando o fósforo da mesma coluna da Tabela Periódica. Ademais, possui também um grupo N-acetila de uma unidade orto-aminofenol comprovando a tendência à acetilação, então em moda na química orgânica preparativa da época.[3] Curiosamente, à mesma época em que Bovet recebia a honraria máxima em Ciência, o Professor Alfred Burger, da Universidade da Virginia nos Estados Unidos, fundava pela American Chemical Society o atual Journal of Medicinal Chemistry, prestigioso periódico científico da área que surge com a denominação de Pharmaceutical Chemistry Journal, em 1958. O Professor Burger foi o idealizador do livro “Principles of Medicinal Chemistry”, publicado em sua primeira edição neste período e tratando pioneiramente os aspectos moleculares dos fármacos por classe terapêutica. Da combinação das duas escolas, europeia e americana, surge a denominação Química Farmacêutica ou Química Medicinal que no nosso país ficou sendo denominada Química Farmacêutica Medicinal, depois da publicação da “Carta de Goiânia”, elaborada no VII Encontro Nacional de Professores de Química Farmacêutica, realizado na Universidade Federal de Goiás. Considero que nossa denominação para esta importante disciplina das Ciências Farmacêuticas é a mais adequada por representar mais fielmente sua origem.

 

A Escola de Verão em  Química Farmacêutica Medicinal (EVQFM)
 
       Após estes dados históricos iniciais, podemos introduzir os fatores que nos motivaram a criar a Escola de Verão em Química Farmacêutica Medicinal, em 1995, no LASSBio da Faculdade de Farmácia da UFRJ. Há muitos anos antes, por volta de 1970, havia sido oferecida pelo Departamento de Química da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, organizada pelo saudoso Professor Otto Richard Gottlieb (1920-2011) um evento denominado Escola de Verão em Química Orgânica. Nesta Escola, que tive o privilégio de participar, às vésperas da conclusão de meu mestrado, em 1973, tinha duas semanas de duração e participaram estudantes, de graduação ou de pós-graduação, com aulas sobre temas específicos, ministradas por especialistas nacionais e internacionais. Por sua localização geográfica, em Serpédica, RJ, a permanência nas dependências da UFRRJ propiciava aos participantes, contato em tempo integral, o que contribuía para aproximação dos professores com os estudantes. Esta iniciativa foi depois implantada, em 1981, no Departamento de Química da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), catalisada pelo saudoso Professor José Tércio Barbosa Ferreira (1952-1997), que também cursou a Escola de Verão em Química Orgânica da UFRRJ e foi colega do narrador no mesmo departamento onde este atuou após seu doutoramento, no período de 1980 e 1984, quando foi criado o curso de pós-graduação em Química Orgânica da UFSCar.
      O inconteste sucesso das Escolas de Verão em Química Orgânica, em dois momentos distintos, reafirmava sua importância e, por isso, após ingressarmos na Faculdade de Farmácia da UFRJ decidimos reeditar esta iniciativa desta feita voltada para a Química Farmacêutica Medicinal, aproveitando, de um lado o apelo da Cidade Maravilhosa no período de verão e o ócio acadêmico deste período do ano, quando as dependências físicas das IFES ficam subutilizados, durante as férias. Assim que, organizamos, durante o segundo semestre de 1994, a primeira edição da Escola de Verão em Química Farmacêutica Medicinal que ocorreu em janeiro de 1995, já com um formato semelhante ao atual, tendo como missão atualizar e capacitar estudantes de graduação e pós-graduação, assim como profissionais e pós-doutores em temas clássicos e modernos da Química Farmacêutica Medicinal através da oferta de cursos de curta duração, conferências de especialistas nacionais e estrangeiros, além de divulgação dos aspectos mais recentes da disciplina.
       Na figura a seguir está uma cópia do memorando original enviado pelo coordenador à Direção da Faculdade de Farmácia da UFRJ, solicitando o encaminhamento de pedido de apoio financeiro à Fundação Universitária José Bonifácio e informando a criação da EVQFM que contou com o apoio do III Encontro Nacional de Professores de Química Farmacêutica realizado nas dependências da Faculdade de Farmácia da UFMG na avenida Olegário Maciel, em Belo Horizonte, MG.[4]





       Desde aquela época até hoje, decorridos 19 anos, a EVQFM foi oferecida ininterruptamente propiciando a mais de 2200 participantes, nacionais ou não, estudantes de graduação e pós-graduação além de profissionais de diferentes profissões e pós-doutores, oportunidade de atualização com temas clássicos e modernos da Química Farmacêutica Medicinal. O sucesso desta iniciativa pode ser constatado pelos inúmeros profissionais que por adotarem a Química Medicinal, tornaram-se expoentes em suas atividades de docência, de pesquisa e outras relacionadas. Passaram pela EVQFM nestas quase 19 edições mais de 50 pesquisadores internacionais renomados, dentre os quais alguns “descobridores de fármacos” como Robin Ganellin (SK&F), inventor da cimetidina em 1975; Simon Campbell (Pfizer), inventor do sildenafil, em 1991; alem de Jean Cumps (Université de Louvain), Hugo Kubinyi (BASF), Antonio Monge (Universidad de Navarra), Camille Wermuth (Université Louis Pasteur), Mitch A Avery (University of Mississippi), Paul Leeson (Astra-Zeneca), Andy E Greene (Université Joseph Fourrier), Janos Fischer (Gideon), Hugo Cerecetto (Universidad de La Republica) dentre muitos outros.
 
 

 Espero que esta leitura tenha sido prazeirosa e que possa ter sido registro, ainda que breve, da história da Escola de Verão em Química Farmacêutica Medicinal que terá sua 19ª edição no período de 18-22 de março de 2013 e para maiores informações sobre esta edição consultem: http://www.farmacia.ufrj.br/lassbio/xix_evqfm
 
Obrigado por lerem.
 
[1] Vide a postagem de 19/02 do corrente “Sobre as moléculas dos fármacos: os acetatos famosos”.
[2] A Editora da UNB publicou o livro “Vitórias da Química – Daniel Bovet”, que descreve a trajetória científica deste pioneiro da Química Farmacêutica Medicinal.

[3] Descrita em Eur. J. Med. Chem., 31, 747 (1996) e depois comentada em: a) C. R. Ganellin et al., Eur. J. Med. Chem. 35, 163 (2000);  b) A Monge et al., Eur. J. Med. Chem., 35, 1121, (2000)

[4] Cabe mencionar que o primeiro Encontro Nacional de Professores de Química Farmacêutica foi organizado pelo saudoso Professor Andrejus Korolkovas, da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo, SP, em 1975.



terça-feira, 25 de setembro de 2012

As longas pernas do Laboratório de Avaliação e Síntese de Substâncias Bioativas (LASSBio®)

INTRÓITO

          Há de se esclarecer, de início, o porquê do título, pois pode sugerir muitas interpretações quando se trata, de fato, de uma metáfora para contar a história do Laboratório de Avaliação e Síntese de Substâncias Bioativas (LASSBio®), na perspectiva de seu fundador. Este narrador.
            Este breve relato histórico exige, para seu completo entendimento, um preâmbulo capaz de situar a o contexto cronológico da narrativa e quebra a série anterior que voltaremos a descrever depois. O narrador evitará mencionar nomes exceto quando a contribuição da pessoa tenha sido de fato significativa em determinado momento da trajetória histórica do LASSBio®, mas que fique bem esclarecido, que todos aqueles e aquelas que contribuíram para com o acervo de conhecimento científico novo criado pelo LASSBio® e registrado resultando em inúmeros documentos científicos públicos - dissertações, teses e publicações - mesmo que não mencionados são importantes atores desta história e na qualidade de Coordenador Científico do LASSBio® o narrador registra seu reconhecimento.
 
PREÂMBULO INICIAL

          Em 1974, inicia-se a construção do que viria a ser vinte anos depois o LASSBio®.  A data de 19 de abril de 1994 é aquela da criação do LASSBio® no então Departamento de Tecnologia Farmacêutica (DTF) da Faculdade de Farmácia (FF) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). As condições que propiciaram esta criação, entretanto, não surgem do acaso, nem da mera decisão de fazê-lo, surgida na cabeça de algum ser iluminado. Muito pelo contrário! Iniciaram-se vinte anos antes, quando seu idealizador, este narrador, começa, na Université Scientifique et Médicale (USMG) de Grenoble, França, sob a orientação científica do saudoso Professor Pierre Crabbé (Figura 1), na condição de bolsista de doutoramento do então Conselho Nacional de Pesquisa (CNPq)[1] - que alguns poucos meses depois passa a chamar-se Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico. Naquela universidade, nascida em 1339, vivemos um aprendizado científico profícuo e intenso de cotidiano bastante construtivo e dinâmico.
Durante os quatro anos de treinamento doutoral que culminaram com a obtenção do título de Docteur-Ès-Sciences d´État, em 23 de junho de 1978, com a defesa da Tese intitulada Synthèse de Nouvelles 11-Deoxy-Prostaglandines: Voie de l'alfa-tropolone, que foi aprovada pela banca examinadora composta pelos Professores Pierre Crabbé, na condição de orientador, Charles Jeffort (Université de Géneve, Suiça), Claude Béguin (USMG), Cuong Lu-Duc (USMG) e Francis Rouessac (Université de Le Mans). Durante este doutoramento, que viria a render 9 publicações descrevendo resultados científicos expressivos em revistas científicas indexadas,[2] forma-se a percepção das condições intelectuais e materiais necessárias e essenciais à realização da atividade de pesquisa científica ética e conduzida pela meritocracia, na área da Química Medicinal, principal vertente do Centre d´Études et Recherche sur Macromolecules Organisées (CERMO), onde atuava o Professor Crabbé e que veio a inspirar e nortear as atividades do LASSBio®, anos depois.
O saudoso Professor Pierre Crabbé

O INÍCIO



            Ao retornar ao País, em agosto de 1978, e ter tido uma breve passagem pela UFRJ, como pesquisador-docente, em 1979, no NPPN convidado pelo saudoso Professor Walter Mors, seu então diretor e mantido por projetos administrados pela FUJB, época em que sugerimos a estudantes o nome de alguns laboratórios na França para a realização de estágios na área da Farmacologia, assumimos o cargo de Professor Adjunto no Departamento de Química da Universidade Federal de São Carlos, onde passamos os próximos 4 anos, contribuindo para a criação do primeiro Programa de Pós-Graduação em Química daquela instituição. Ao retornar à UFRJ, em cargo equivalente, obtido por concurso público de provas e títulos, em 24 de maio de 1984, iniciamos a materialização do sonho da criação do LASSBio®. Almejávamos criar no Brasil um grupo de pesquisas de excelência, capaz de ter reconhecimento internacional em área totalmente incipiente das Ciências Farmacêuticas, como o era a Química Farmacêutica ou Química Medicinal ou ainda, como veio a ser denominada mais recentemente, Química Farmacêutica Medicinal. Cedo percebemos qual seria a condição essencial para a concretização e realização deste projeto: muito trabalho! mais trabalho! e, finalmente, mais trabalho, ainda! Além do mais, estava óbvio que seria necessário o suporte e o apoio de parceiros inteiramente comprometidos com o projeto, capazes de responderem ao desafio imposto com a força de trabalho suficiente, no tempo adequado. Para tanto algumas qualidades e alguns valores nos pareciam ser indispensáveis além da ética: tenacidade, para perseguir o objetivo maior sem nenhuma concessão aos princípios do mérito científico, valor inegociável, assim como a lealdade, que permitiriam que todos contribuíssem com o mesmo esforço e de forma mensurável comparativamente. Desta forma, estaríamos prontos para dar os primeiros passos que deviam ser largos, nesta longa e árdua caminhada.
          Em agosto de 1986, fomos aprovados em primeiro lugar em concurso público de provas e títulos para o cargo de Professor Titular do DTF da FF da UFRJ. A banca examinadora era composta pelos professores Andrejus Korolkovas (USP), Elfrides Schapoval (UFRGS), Fernando Stelle da Cruz (UFRJ), Fernando Ubatuba (UnB) e Guilherme Kurtz (UFRJ). Ao responder a uma determinada pergunta da Banca Examinadora na prova de Memorial, sobre a ausência de resultados biológicos para as inúmeras substâncias bioativas descritas na Tese de Titular, muitas análogas estruturais de fármacos anti-inflamatórios clássicos e outras tantas análogas às prostaglandinas, tromboxanas e prostaciclinas, o narrador descreveu seus esforços iniciais para aproximação com farmacologistas. Estes esforços foram iniciados em 1979, em colaborações científicas com o Professor Antonio José Lapa, então na equipe do Professor José Ribeiro do Vale na Escola Paulista de Medicina e com o Professor João Batista Calixto, então recém ingresso na Universidade Federal de Santa Catarina. Esta aproximação interdisciplinar foi bastante proveitosa, embora os resultados científicos não tivessem sido excelentes, pois as substâncias então ensaiadas mostraram-se pouco potentes, nas concentrações estudadas. A primeira lição importante aprendida e que denominamos "efeito porta ao lado", significava a necessidade da proximidade física entre as equipes de pesquisas dos especialistas da Química Medicinal e da Farmacologia. A capacidade de diálogo ágil entre estes pesquisadores de áreas distintas e complementares, essenciais aos objetivos propostos para a atuação do LASSBio®, teria de ser um dos objetivos imediatos a serem alcançados para o sucesso de um laboratório de Química Medicinal.
          Assim que, empossados no cargo de Professor Titular do DTF, reiniciamos diversas orientações de pós-graduandos, algumas pelo, então Programa de Química Orgânica do Instituto de Química e atual Programa de Pós-Graduação em Química onde somos orientador credenciado desde 1978. Cabe menção a orientação do Sr Antonio Carlos Carreira Freitas, que já ocupava o cargo de Professor Assistente no DTF e quem trabalhou, inicialmente, com a síntese de novas hidrazonas potencialmente biotivas . Os títulos dos projetos de pesquisa e das dissertações e teses orientadas àquela época tinham, não raramente, as palavras "potencialmente ativos", pois não havíamos ainda encontrado, de forma adequada, a maneira de sensibilizarmos os colegas farmacologistas a se integrarem aos projetos de pesquisa em andamento, viabilizando a aproximação da Química Medicinal e da Farmacologia. Nesta época, aparece o Sr Anibal de Lima Pereira, farmacêutico formado na FF-UFRJ e ex-orientado de mestrado do narrador, pelo Núcleo de Pesquisas de Produtos Naturais (NPPN), que se tornara Professor Assistente de Química Farmacêutica no DTF e realizava seu doutoramento pelo mesmo NPPN, sob a orientação do saudoso Professor Roderick Barnes. Foi com a ajuda do saudoso Anibal que convencemos o Corpo Deliberativo do então DTF a conceder o laboratório até então destinado às atividades da Professora Iolanda Rovigatti da Silva Jardim, que aposentada, não mais o utilizava, para que realizássemos nas dependências daquele departamento e não mais nos laboratórios do NPPN, nossas atividades de pesquisa. Nasce assim o primeiro cm2 do que viria a ser o LASSBio®. Na área do laboratório apenas havia um aparelho de ponto de fusão Kofler, com defeito, e foi com o trabalho dedicado e tenaz de Anibal e de duas estudantes de Farmácia (Ana Paola Lo Surdo e Rosângela de Almeida Epifânio), que aceitaram estagiar no laboratório naquelas condições e contribuíram para se ter as condições mínimas de trabalho em síntese orgânica, utilizando material e pequenos equipamentos adquirido pelo narrador em projetos aprovados pelo CNPq quando de sua permanência na UFSCar e que foram trazidos à UFRJ, em viatura particular, com a anuência documentada do DQ daquela Universidade. Neste momento estavam criadas as condições para implantar-se a atividade de pesquisa científica no DTF. Vários relatos poderiam ilustrar a nova fase do DTF da FF a partir desta iniciativa, que culminou com a criação do LASSBio®. A título de ilustração cabe mencionar que foram nas paredes do DTF no bloco B, subsolo, que se iniciou a tradição de afixar os painéis após sua apresentação em congressos científicos, numa forma de relatório mural das atividades de pesquisa ali realizadas. 
 
O laboratório em seus primórdios (à esquerda) e atual, após permuta de espaço físico com a saudosa Professora Maria Tereza Loureiro Lima.

          Naquela época tinha o DTF, assim como outros departamentos da unidade, salas no segundo andar do bloco A do CCS, destinadas a secretaria administrativa, o que não havia sido concretizado até este momento. Com a anuência e o apoio da Chefia do DTF, na pessoa da saudosa Professora Alice Pereira Matos, passamos a ocupar parte desta área ociosa do bloco A como gabinete. Esta área era utilizada apenas para a guarda de material didático e bibliográfico, antigo, herdado pelo DTF de outros docentes e que estavam sob a guarda do Professor Levi Gomes Ferreira, então Diretor da Unidade. A sala 52 do segundo andar do bloco A do CCS, foi adaptada para ser o gabinete de trabalho do narrador que depois ganhou a configuração atual, num outro local do mesmo corredor do bloco A. Àquela época o DTF adotava uma ampla sala como “sala de professores”, comum a todos os docentes de todas as disciplinas sob sua responsabilidade, sem gabinetes personalizados ou compartilhados. Este era o formato adotado em escolas de segundo grau como a Escola Normal, por exemplo.
            Nesta época, por sugestão de Antonio Carlos e Anibal viemos a convidar um professor recém aposentado da Escola de Veterinária da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, Ézio Tiff, farmacologista que aceita o convite para implantar, no DTF, em área física ociosa da então disciplina de Controle Químico de Qualidade, em condições bastante precárias, o primeiros bioensaios, em animais. Esta iniciativa foi a precursora da implantação dos bioensaios in vivo no futuro LASSBio®. As dificuldades eram enormes, mas Ézio aceitou o desafio e graças a estes três personagens, autênticos pioneiros, surgiram as condições que viabilizaram a criação do LASSBio®, alguns anos após dando a configuração de sua área física atual. Data desta época, a percepção da necessidade de implantar-se no DTF, espaço dedicado a criação de animais de laboratório. Neste sentido, gestões feitas pelo narrador, junto ao então Departamento de Anatomia, viabilizou o espaço do que era o elevador de cadáveres, então desativado, para a implantação do biotério do futuro LASSBio®, no final do corredor do subsolo do bloco B do CCS da UFRJ. Mais ou menos nesta mesma época, enquanto na Chefia do DTF, o narrador viabiliza a criação de uma vaga para concurso público de provas e títulos com apoio do Corpo Deliberativo Departamental e a direciona para a disciplina de Controle Biológico e Microbiológico o que viabiliza o ingresso da Professora Ana Luisa Miranda, a quem já havia convidado para associar-se ao DTF, enquanto validava na UFRJ seu diploma de doutoramento, obtido em Toulouse pelo Institut National Polytechnique, em 1986, aonde foi orientada pelo Professor Pham Huu Chanh, pesquisador indicado, anos antes, pelo narrador.
O DESENHO ATUAL
          Em várias reuniões do CD do DTF foram discutidas as necessidades de organizarem-se a força de trabalho de todos os docentes com interesse afins, de maneira mais convergente e racional, aumentando nossa competitividade em editais das agências de financiamento. Após numerosas reuniões específicas e muito estimulados pelos mesmos personagens mencionados acima, decidimos pela criação do LASSBio®, com uma conformação de pessoal bastante ampliada, pois a maioria dos docentes do DTF, fora da área de Controle Químico de Qualidade, com interesse comuns em atividades de pesquisa, foram convidados a participarem e passaram a integrar o LASSBio® em seus primórdios. Nesta época detectou-se a necessidade de termos uma logomarca e com o apoio de um estudante de mestrado, Sr André Luis de Almeida Reis, e de desenhista de seu conhecimento, após uma árdua seleção foi escolhido o logo do LASSBio®, que hoje é uma marca registrada, por iniciativa do narrador. Naquela época os recursos do DTF estavam escassos e os custos foram integralmente assumidos pelo narrador. Estava criado o LASSBio® e a data deste início é aquela mencionada: 19 de abril de 1994, dez anos depois do retorno do narrador à UFRJ.
          Há de ser registrado que a esta época já havia sido publicado o primeiro trabalho conjugando os esforços de pesquisa da Química Medicinal, tal qual concebida no LASSBio®, e da farmacologia, envolvendo uma mestranda orientada pelo Professor Nuno Álvares Pereira, do então Departamento de Farmacologia Básica e Clínica do ICB, a Srta Edna Fátima Rezende Pereira, que estudava algumas substâncias sintetizadas no futuro LASSBio, pelo mestrando Marco Edilson Freire de Lima, orientado pelo narrador, a partir do safrol, produto natural abundante do óleo de Sassafras (Ocotea pretiososa),  como novos análogos do fármaco anti-inflamatório sulindaco. Em 1989, publicou-se os resultados farmacológicos obtidos pela Edna no Brazilian Journal of Medical and Biological Research,[3] sendo esta publicação o marco zero do sucesso da aproximação da Química Medicinal e da Farmacologia, que caracterizam o LASSBio® desde seu início e que anos após resultou na reformulação do programa de pós-graduação daquele Departamento no primeiro programa de pós-graduação multidisciplinar em Farmacologia e Química Medicinal na América Latina, reconhecido pela CAPES, em 2006.
Logo do LASSBio
 
 
 
          Nos idos de 1990, contava a disciplina de Química Farmacêutica do DTF com a participação do docente Joaquim Fernando Mendes da Silva, que se colocou em vaga de concurso público de provas e títulos para Professor Assistente de Química Farmacêutica, superando seu concorrente, o Sr Carlos Alberto Manssour Fraga, orientado de mestrado do narrador, em 1991. O Sr Manssour ficou no DTF executando projeto de pesquisa que viria a ser sua tese de Doutoramento defendida pelo IQ-UFRJ, em 1994. Algum tempo após, concursado numa nova vaga foi aprovado e tornou-se Professor Adjunto da disciplina de Química Farmacêutica do DTF, atuando no LASSBio®. Até tomar posse na vaga em que foi aprovado, aguardando que cessasse as limitações de contratações de servidores públicos de todas as categorias, impostas pelo governo do presidente Collor de Mello, Manssour ficou como bolsista de pós-doutoramento da FAPERJ, desenvolvendo projeto de pesquisa em associação com a Faculdade de Farmácia da UFF, coordenado pelo Dr Antonio Carlos C. Freitas, docente também daquela IFES.           
          Na época, dispunha o DTF, no subsolo do bloco B do CCS, de uma ampla sala de professores, já mencionada, que tinha como anexo um espaço de copa, onde trabalhava a saudosa Dona Otília. Com a separação do DTF, em DeFar e DeMed, por esta época, e consequente remanejamento do espaço físico disponível nas áreas comuns, reivindica o narrador, para o LASSBio®, o espaço correspondente à antiga copa do DTF para implantar a sala do professor Manssour, recém concursado e que até então compartilhava, por absoluta falta de espaço físico no LASSBio®, a sala dos estudantes, em sua versão original de tamanho reduzido, e também acomodar o setor de modelagem computacional do LASSBio®, que se iniciava e onde desenvolvia-se diversas dissertações e teses além de estágios de IC. Cabe menção ao papel pioneiro nesta área de trabalho do LASSBio® do então futuro doutor Carlos Maurício Rabello Sant´Anna, atualmente Professor Associado do Departamento de Química Orgânica (DQO) do IQ da UFRRJ que, orientado pelo Professor Ricardo Bicca de Alencastro do IQ, realizou estudos de modelagem com análogos do fator de agregação plaquetária (PAF), tema de interesse do LASSBio®. Foi Maurício, na qualidade de doutorando, coorientado pelo narrador, quem implantou, na prática, os trabalhos de modelagem do LASSBio®, sempre com o apoio irrestrito do Professor Bicca e também do Professor Claúdio Costa Neto que viabilizou o uso de equipamentos sob sua responsabilidade na execução de vários dos projetos iniciais do LASSBio® nesta área. Foi nesta área de trabalho que vários outros estudantes concluíram suas dissertações e teses, posteriormente, utilizando a mesma área física. Algum tempo após, a modelagem molecular do LASSBio® foi transferida para uma sala do bloco B, primeiro piso, necessária à acomodação das novas estações de trabalho da Silicon Graphics, adquiridas com recursos obtidos no primeiro edital do projeto Pronex, coordenado pelo Professor Édson Xavier Albuquerque do Departamento de Farmacologia Básica e Clínica (DFBC) do ICB, tendo o LASSBio® participado como integrante deste projeto e sendo o narrador seu vice-coordenador. Esta sala resultou do redimensionamento de salas de aula do bloco B e foi cedida pela Decania do CCS na gestão do saudoso Professor João Ferreira da Rocha, sensível às limitações de espaço físico do LASSBio®, agravadas pela chegada da nova docente concursada, Professora Lidia Moreira Lima, orientada de doutoramento do narrador, que tendo concluído sua tese pelo IQ da UFRJ em 2001, passa a integrar a disciplina de Química Farmacêutica após aprovação em concurso para o cargo de Professor Adjunto. Assim que, a então sala de modelagem e também gabinete do Professor Manssour, foi redesenhada para acomodar os docentes atuantes no LASSBio®, viabilizando a os gabinetes dos Professores Manssour, Ana Luisa e Lidia, neste espaço.
          O projeto Pronex trouxe excelentes benefícios ao LASSBio®, pois, se de um lado viabilizou a implantação do setor de modelagem molecular, também contribui de foma marcante para a efetiva aproximação de alguns docentes do LASSBio® com vários colegas, produtivos, do então DFBC do ICB. Esta aproximação veio, posteriormente, compor a equipe interdisciplinar que caracteriza o trabalho de pesquisa feito no LASSBio®, agregando a Química Medicinal e a Farmacologia, e que foi fator decisivo na conquista de importante projeto representando pelo Instituto do Milênio em Fármacos e Medicamentos (IM-INOFAR), coordenado pelo narrador, que associou-se ao Instituto Virtual de Fármacos (IVFRJ), apoiado pela FAPERJ, embrião do atual Portal dos Fármacos. Ambos, IM-INOFAR e IVFRJ representavam os principais projetos de interesse do LASSBio®, à época. O IM-INOFAR foi o embrião do atual Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Fármacos e Medicamentos (INCT-INOFAR) do qual o LASSBio®-CCS-UFRJ é a sede e que por sua natureza transversal no âmbito do CCS, teve sua administração instalada no bloco K do CCS. Este projeto representa uma rede nacional/internacional de pesquisa para a inovação radical e incremental em fármacos e medicamentos, contribuindo para nossa capacitação neste importante setor das Ciências Farmacêuticas.

CONCUSÃO

          Pela trajetória percorrida de pernas longas e documentada brevemente aqui, tornou-se o LASSBio® importante referência nacional e internacional da Química Medicinal, formando quadros qualificados de mais de uma centena de pós-graduados, doutores e mestres, além de outros tantos IC´s.  Seus egressos, pós-graduados, em sua esmagadora maioria, ocupam hoje posições científicas de destaque em diversas instituições de ensino e pesquisa no País e no exterior.
          O sucesso do LASSBio® não foi alcançado de graça, muito pelo contrário. Foi conquistado com muito esforço, tenacidade e trabalho, de muitos, em diversos momentos e níveis, sendo cada um, artífice responsável pelo que representa o LASSBio® hoje no panorama da Ciência do estado do Rio de Janeiro e do Brasil.
Composição do LASSBio
Professores:
Prof Eliezer J. Barreiro (Coordenador Científico; http://lattes.cnpq.br/5942068988379022)
Prof. Carlos Alberto M Fraga (http://lattes.cnpq.br/9782159937151139)
Profa Dra Lidia Moreira Lima (http://lattes.cnpq.br/3986190995983234)
Prof. Carlos Maurício Rabello de Sant’Anna (http://lattes.cnpq.br/2087099684752643)
Prof. Hélio de Mattos Alves (http://lattes.cnpq.br/4628603485418322)
Profa. Aloa Machado de Souza (http://lattes.cnpq.br/9178624520736756)

[1] Bolsista de doutoramento do CNPq de agosto de 1974 até julho de 1978.
[2] 1.E. J. BARREIRO, J.-L. Luche, J. Zweig e P. Crabbé, "Reactions of Aldehydes with Lithium Dimethylcopper", Tetrahedron Letters, 2353-2354 (1975); 2. E. J. B ARREIRO, J. Zweig, J.-L. Luche e P. Crabbé, "Asymmetric Induction in Addition of Organocuprates", Tetrahedron Letters, 2355-2358 (1975); 3. E. J. BARREIRO, J.-L. Luche, J.-M. Dollat e P. Crabbé, "Formation of Allenes by Reaction of Lithium Diorganocuprates on Propargylic Acetates - A Mechanistic Approach", Tetrahedron Letters, 46l5-46l8 (1975); 4. E. J.  BARREIRO, P. Crabbé, J.-M. Dollat e J.-L. Luche, "Controlled Formation of Allenes with Organocuprates", Journal of the Chemical Society, Chemical Communications, 183-184 (1976); 5. P. Crabbé, E. J. BARREIRO, A. Cruz, J.-P. Depres, M. C. Meane e A. E. Greene, "New Synthesis of Prostaglandins", Heterocycles, 5, 725-746 (1976); 6. P. Crabbé, E. J. BARREIRO, H. Sook, A. Cruz, J.-P. Depres, G. Gagnaire, M. C. Meana A. Padilla e L. Williams, "Voies Nouvelles en Synthese de Prostaglandines", Bulletin des Societes Chimiques Belges, 86, 109-124 (1977); 7. A. E. Greene, P. Crabbé, E.J. BARREIRO, R. Baudouy, A. Cruz, J.-P. Depres, C. le Drian, H. Nagano e A. F. Orr, "The Use of Cicyclo (3.2.0) heptanones in the Synthesis of Natural Products and Modified Natural Products", Acta Pharmaceutica Suecia (Supl.), 14, 26 (1977); 8. P. Barret, E.  J. BARREIRO, A. E. Greene, J.-L. Luche, M. A. Teixeira e P. Crabbé, "Synthesis of New Allenic Prostanoids", Tetrahedron, 32, 2931-2939 (1979); 9. A. E. Greene, M. A. Teixeira, E. J. BARREIRO, P. Crabbé e A. Cruz, "The Total Synthesis of Prostaglandins by the Tropolone Route", Journal of Organic Chemistry, 47, 2553-2564 (1982).
[3] E. F. R. Pereira, N. A. Pereira, M. E. F. Lima, F. A. S. Coelho, E. J. BARREIRO, "Antiinflammatory properties of New Bioisostere of Indomethacin", Brazilian Journal of Medical and Biological Research, 22, 1415-1419 (1989).

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Linha do Tempo da Química Medicinal: assim nascem os fármacos (Parte XIV)


Entramos na décima quarta parte da Linha do Tempo da Química Medicinal e atingimos nesta descrição cronológica, o século atual. A figura abaixo ilustra os fármacos que elegemos para exemplificar estas descobertas/invenções nesta primeira década deste novo século XXI, ano a ano, a partir de 2001. 
            O critério adotado para a seleção destes exemplos anuais de inovações farmacêuticas recentes fundamentou-se na leitura cuidadosa da seção Market to Market do Annual Reports of Medicinal Chemistry, publicado pela Divisão de Química Medicinal da American Chemical Society, da qual o autor é membro, onde são descritos os novos fármacos e biofármacos, de todas as classes terapêuticas, aprovados pelo Food and Drug Administration (FDA), agência regulatória dos EUA. Foram selecionados, a cada ano do período indicado, os fármacos que consideramos verdadeiramente inovadores, seja por representarem um novo mecanismo farmacológico de ação para o tratamento de patologias que já dispomos de medicamentos, ou pelas características estruturais originais ou, ainda, ambos, além daqueles que poderiam ser considerados medicamentos órfãos. Evidentemente que fosse o autor outra pessoa, as escolhas variariam um pouco. Os números em negrito na Figura, indicam o total de fármacos descritos em cada volume do Annual Reports of Medicinal Chemistry na seção Market to Market.
 
Os onze fármacos selecionados (Figura acima) têm indicações terapêuticas variadas, indo do tratamento do câncer (3) à dor neuropática, passando pelo sistema nervoso central (2) e cardiovascular (2), além de indicações para controle da diabetes, esclerose múltipla e tratamento da AIDS. Destes apenas um não foi lançado no mercado no ano indicado, mas foi incluído pela nova indicação terapêutica autorizada pelo FDA, no ano em que sua patente vencia no mercado norte-americano, o maior do mundo. Trata-se da risperidona (RisperdalR) que foi desenvolvido pela Janssen, em 1993, para tratamento da esquizofrenia e por atuar sobre receptores dopaminérgicos e serotoninérgicos acabou sendo classificado como um fármaco antipsicótico atípico. No ano indicado na Figura, 2003, a risperidona teve ampliada sua indicação terapêutica para o controle da desordem bipolar e do altísmo, doenças sem muitos recursos terapêuticos. O impacto destas novas indicações, nos motivaram a incluí-la nesta parte desta Linha do Tempo da Química Medicinal, ilustrando uma situação menos comum da inovação farmacêutica. A risperidona e o aripripazola (AbilifyR), lançado em 2002, pela Bristol-Myers Squibb para tratamento de psicoses severas, representEsta am os dois fármacos neuroativos da Figura e têm em comum o perfil de ação multialvos. O primeiro fármaco da Figura, lançado em 2001, imatinibe (GlevecR), lançado pela Novartis como o primeiro anti-câncer atuando por um novo mecanismo de ação, ao nível da tirosina-quinases (TK’s) foi objeto da discussão da Parte XII desta  Linha do Tempo da Química Medicinal, onde se encontra também o erlotinibe (TarcevaR), lançado em 2004 pela Genetech e OSI Pharmaceuticals. Este inibidor de TK atua sobre os receptores do fator de crescimento da epiderme (EGFR) e ao nível da JK2 e tem tido indicação principal o tratamento do câncer de pulmão e do pâncreas. O erlotinibe tem em sua estrutura, além do padrão farmacofórico da classe, representado pela subunidade diarilamina, a presença de uma função relativamente pouco comum em fármacos, um alcino verdadeiro que está presente neste composto com natureza benzílica. Incluímos na Figura o ziconotido (PrialtR), lançado em 2005, como um exemplo de um fármaco peptídico de origem marinha que têm como indicação o tratamento da dor neuropática, representando por estas razões importante inovação terapêutica. Devido à sua natureza peptídica é administrado por via intratecal. Os fármacos representantes dos anos 2006-2011, cujas estruturas estão ilustradas na Figura abaixo, e.g. vorinostat (ZolynzaR), maraviroc (SelzentryR), rivaroxabano (XareltoR), saxaglipina (OnglyzaR), dabigatrano (PradaxaR) e fingolimod (GilenyaR), representam autênticas inovações terapêuticas por atuarem através de mecanismos farmacológicos originais ou recentemente descobertos. A história de alguns serão discutidas nas partes subsequentes desta Linha do Tempo da Química Medicinal.
 
Obrigado por ler.