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quinta-feira, 28 de março de 2013

Mais história de inovação terapêutica recente: a descoberta do crizotinibe

Esta postagem é a vigésima deste blog às vésperas da Páscoa de 2013, cabendo iniciá-la com votos de uma Feliz Páscoa a todos e a todas.


  
 
     Vamos tratar agora da descoberta do crizotinibe, um importante fármaco anticâncer que foi aprovado pelo Food and Drug Administration dos EUA, em agosto de 2011. Este novo tinibe teve indicação preferencial para o câncer de pulmão que representa a segunda mais importante forma da doença, vindo em seguida ao câncer de próstata em homens e da mama em mulheres. O câncer de pulmão pode ser classificado em dois tipos relativo à natureza das células envolvidas. Aqueles de pequenas células e outras formas de células não pequenas (NSCLC do inglês: non-small cell lung cancer), que é majoritário. Este tipo de tumor corresponde a um grupo heterogêneo, composto de três tipos histológicos principais e distintos, a saber: carcinoma epidermóide, adenocarcinoma e carcinoma de grandes células que acomete cerca de 75% dos pacientes diagnosticados com câncer de pulmão. O tratamento do NSCLC têm sido realizado utilizando fármacos organo-platina que, infelizmente, não permitem uma sobrevida superior a um ano para os pacientes. Outra opção compreende o emprego de antagonistas do receptor do fator de crescimento da epiderme (EGFR) e inibidores de tirosina quinase como o gefitinibe e o erlotinibe. O crizotinibe é um derivado 2-amino-3-benziloxi-5-aril-piridina desenvolvido pela Pfizer e comercializado com o nome XalkoriR. Este fármaco é um inibidor dual de tirosina quinase (TK´s), atuando competitivamente no sítio do ATP desta classe de enzimas, em concentração nanomolar, especialmente sobre a c-MET (fator de transição epitelial-mesenquimal) tirosina quinase e a do linfoma aplástico (ALK), com IC50 de 8 e 20 nM, respectivamente. A concentração em que o crizotinibe atua sobre outras quinases é cem vezes maior, no mínimo, do que aquela observada sobre seus alvos preferenciais o que assegura elevada seletividade. Vale mencionar que em ensaios pré-clínicos este fármaco promoveu a regressão de tumores severos em pulmões de ratos tratados por 15 dias com 100 mg/kg/dia. Em ensaios clínicos o crizotinibe permitiu sobrevida superior a um ano em 77% dos pacientes e de dois anos em 64% dos pacientes, quando tratados com 250 mg/dia p.o..
O custo médio deste tratamento pode atingir ca. R$20000,00 (vinte mil reais)/mês.
 
   O crizotinibe é resultado de um programa de pesquisas em Química Medicinal aplicando a estratégia de desenho molecular baseado na estrutura do alvo terapêutico (SBDD, do inglês: structure base drug design), especificamente o sítio quinase da c-MET, não fosforilada. Empregando técnicas de co-cristaliação em ligantes da classe das indolil-2-onas, subunidade estrutural presente em eficientes inibidores de TK eleito como protótipo, como o sunitinibe, também patente da Pfizer e aprovado para tratamento de tumores de estômago, a estrutura inicial foi otimizada. Foi observado, ainda, nestes estudos, que a introdução de substituintes nas posições 4 e 5 do anel indolinônico do ligante indolil-2-ona, permitia a modulação da atividade sobre c-MET, tendo sido identificado o derivado sulfonamídico como mais eficiente (Figura). A partir desta substância, modificações moleculares ao nível da função sulfonamida levaram ao composto simplificado 1 (PHA-665752), apresentando uma função metilenosulfona entre o terminal fenil-halogenado e o sistema indolinônico, além de alterações ao nível da amida piperazínica. Esta substância foi bastante eficaz ao inibir a c-MET, atuando em concentração de 8 nM. Estudos de co-cristalização deste composto com a c-MET orientaram às modificações moleculares posteriores que foram introduzidas alterando a natureza indolinônica original e sacrificando a função sulfona. Estas alterações levaram ao novo padrão molecular presente no crizotinibe, que apresentou o perfil de atividade duplo desejado, atuando sobre a c-MET, praticamente na mesma concentração do precursor 1 e na quinase ALK em concentração de 20 nM.


 



  A rota de síntese utilizada para a preparação do crizotinibe está ilustrada a seguir.
 A partir da acetofenona dicloro-fluoroda, reduzida enantiosseletivamente por meio de esterases de fígado de porco, a pH 7 em tampão de fosfato, produziu-se o (S)-álcool em 99% de excesso enantiomérico. Reação de Mitsunobu do álcool quiral com 3-hidróxi-2-nitropiridina forneceu o nitro-éter em ótimo rendimento. Redução em condições de hidrogenação catalítica, utilizando níquel, produziu o derivado amminopiridiníco que, em seguida foi substrato para a reação de Suzuki com o pinacol-boronato pirazólico protegido com N-Boc. Finalmente, desproteção da subunidade piperidínica com tratamento ácido e cristalização em n-heptano, forneceu o crizotinibe em bons rendimentos globais nesta rota sintética escalonada para 20 kg.
 
 
Este fármaco representa significativo recurso terapêutico para o tratamento de pacientes com câncer de pulmão de células não pequenas, estando programada para este ano de 2013, a entrega do dossiê à ANVISA visando seu uso no País.
Obrigado por ler.
____________________________________________       
1.  PD de Koning et al., Org. Process Res. Dev. 2011, 15, 1018


quarta-feira, 27 de março de 2013

sábado, 16 de fevereiro de 2013

A história de uma inovação terapêutica recente: a descoberta do tofacitinibe

 
 
 
 

Um dos desafios ainda não completamente respondidos em termos terapêuticos é o tratamento de quadros inflamatórios crônicos, degenerativos, como a artrite reumatoide (AR). Vários biofármacos que apresentam propriedades anti-fator de necrose tumoral a (TNF-a; e.g. adalimumab (HumiraR, Abbott), infliximab (RemicadeR, Janssen Biotech), etanercept (EnbrelR, Amgen)), atuando por distintos mecanismos moleculares, têm sido empregados no controle desta doença, mas com ainda algumas limitações. Como produtos biotecnológicos, estes biofarmacos são de elevado custo e oneram sobremaneira os sistemas de saúde pública, além de não poderem ser utilizados por via oral. Embora inúmeros esforços de pesquisa venham sendo feitos por diversos laboratórios, ainda não se logrou obter um fármaco efetivo para o tratamento eficaz da AR. Na verdade, ainda não se havia logrado sucesso, até novembro de 2012, quando a agência reguladora norte-americana (Food Drug Administration, FDA) autorizou o uso do tofacitinibe (XeljanzR) com indicação para o tratamento da AR.
Vale registro o fato de que sua aprovação ao final do ano passado, resultou num esforço de pesquisa conjunta entre grupos de pesquisa da Pfizer e do National Institute of Health (NIH) dos EUA, liderados pelos Dr Paul Changelian e Dr John J. O’Shea, respectivamente. Esta colaboração se iniciou no verão de 1993, quando após uma conversa entre os dois, no FASEB Summer Conference on Lymphocytes and Antibodies, realizado em Vermont, surgiu a perspectiva de se utilizarem um novo possível alvo para controlar a resposta imunológica com benefícios para o tratamento de doenças imunes e mesmo a prevenção da rejeição de órgãos transplantados como objetivava o grupo de pesquisas em imunossupressão da Pfizer Global Research de Groton, Conneconticut, onde atuava o Dr Changelian. À época o Dr O’Shea estudava uma classe de tirosina-quinases com ação na resposta imunológica, especialmente a Janus quinase (JAK1, JAK2, JAK3) que são proteínas com ca. 1150 amino ácidos e peso molecular aparente de 120-130 kDa, atuando sobre receptores próprios, promovendo sua fosforilação e atuando sobre o ativador da transcrição e transdutor de sinal (STAT, signal transducer and activator of transcription; Figura) que controla a  sinalização promovida pela interleucina-2 (IL-2), um fator decisivo para o aumento de linfócitos T, envolvidos, por exemplo, na rejeição de rins transplantados. A via da JAK também modula outras citocinas como o interferon a/b (IFN), IL-6, IL7, IL-15 e IL-21. Outros resultados descritos na literatura, apontavam para a interveniência do sistema dependente da JAK na modulação da IL-2 e, consequentemente na produção de linfócitos T. Estes resultados vistos em conjunto sugeriam que possivelmente o bloqueio da via JAK poderia resultar na regulação da resposta imune exacerbada. Esta intervenção terapêutica representava um inovação terapêutica para o controle e tratamento da AR. Após a Pfizer e o NIH terem estabelecido acordos de cooperação, um projeto de pesquisa se iniciou na busca de novos compostos com propriedades inibidoras da JAK.
 Sistema JAK-STAT
 
 

Em meados de 2000, foi identificado pelo grupo de imunologistas e químicos medicinais, o composto CP-690.550 derivado sintético heteropiperidínico funcionalizado, que inibe a JAK1 e JAK3. Estudos pré-clínicos realizados em macacos com rins transplantados, na Universidade de Stanford, EUA, indicaram a efetividade desta substância que após ensaios clínicos em pacientes com psoríase severa, indicaram nítida regressão das placas psoriáticas, confirmando a indicação anti-inflamatória. Em 2011, a Pfizer depositou no FDA o dossiê de New Drug Application que teve sua aprovação em novembro de 2012. Este derivado pirrolo[2,3-d]pirimidina, possui este sistema heterocíclico de forma a assegurar similaridade molecular com o ATP utilizado por esta tirosina-cinase na fosforilação do receptor e tem sua síntese ilustrada na Figura abaixo. Pode ser obtido a partir da 3-amino-4-metilpiridina e é utilizado na forma enantiopura. Foi denominado inicialmente tasocitinibe e, posteriormente, tofacitinibe, com indicação no tratamento da AR e possivelmente psoríase e doença inflamatória do intestino entre outras doenças inflamatórias crônicas degenerativas de fundo imunológico (veja a bibliografia citada ao final).
 
Rota sintética do tofatinibe
  
Estimam os especialistas que o custo do tratamento com tofacitinibe seja em torno de US$ 70, mensais/paciente. Este é um aspecto importante desta inovação terapêutica, pois se confirmadas estas expectativas, o uso de biofármacos de elevado custo, poderá ser substituído por recurso terapêutico mais barato. Apenas para ilustrar, o faturamento anual, em 2012, para os três biofármacos indicados anteriormente superou os US$ 12 bilhões, sendo as expectativas de vendas para 2013, apenas do adalimumab (HumiraR), da Abbott, superiores aos US$ 8,5 bilhões, sendo atualmente um dos best-seller em vendas. Estudos recentemente publicados de ensaios de fase clínica 3, realizados nos EUA (David Geffen School of Medicine, University of California em Los Angeles), Brasil (Centro Paulista de Investigação Clinica & Departamento de Reumatologia, Hospital Heliópolis, São Paulo, SP), Espanha (Hospital Universitario Marqués de Valdecilla, Avda Valdecilla, Santander) e Alemanha (Charité—University Medicine Berlin, Berlin, Germany & Schoen-Klinik Hamburg-Eilbek Teaching Hospital of the University of Hamburg, Hamburg), evidenciaram que o tofacitinibe, associado ao metotrexato, permitiu o controle  da AR em pacientes que não respondem aos biofarmacos usuais. A Pfizer anunciou resultados favoráveis de estudos clínicos de fase 2 com este fármaco no tratamento da psoríase, podendo vir a ser uma segunda indicação para o tocitinibe. O mercado de fármacos para o tratamento desta doença inflamatória é estimado em ca. US$ 8 bilhões, em 2020.
A história do tofacitinibe ilustra uma recente inovação terapêutica, em termos do princípio ativo e do mecanismo farmacológico de ação que terá forte impacto no tratamento da AR, sendo possível que este fármaco se torne, em breve, um novo blockbuster, reduzindo para a Pfizer o impacto da perda de receita provocada pelo fim do monopólio patentário da atorvastatina, em novembro de 2011.
Obrigado por ler.
Bibliografia:

JJ O'Shea, H Park, M Pesu, D Borie, P Changelian, New strategies for immunosuppression: interfering with cytokines by targeting the Jak/Stat pathway, Curr. Opin. Rheumatol. 2005, 17, 305.
Tofacitinib, Drugs in R&D, 2010, 10, 271-284
WJ Sandborn, S Ghosh, J Panes, I Vranic, C Su, S Rousell, W Niezychowski, Tofacitinib, an Oral Janus Kinase Inhibitor in Active Ulcerative Colitis, N Engl J Med 2012, 367, 616;
GR Burmester, R Blanco, C Charles-Schoeman,  J Wollenhaupt, C Zerbini, B Benda, D Gruben, G Wallenstein, S Krishnaswami, SH Zwillich, T Koncz, KSoma, J Bradley, C Mebus, A recent phase-III clinical trial (Tofacitinib (CP-690,550) in combination with methotrexate in patients with active rheumatoid arthritis with an inadequate response to tumour necrosis factor inhibitors: a randomised phase 3 trial, Lancet 2013, 381, 451.
 

 
 

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

A Inovação em Fármacos: Novos Fármacos lançados em 2012

 

          Tenho lido aqui e ali, em diversos periódicos científicos, renomados e prestigiosos, artigos de diferentes autores, de diferentes especialidades, atuantes na academia e também nas empresas farmacêuticas que inventam fármacos, sobre a grave situação vivida pelas empresas no que tange à sua capacidade de inovação farmacêutica.[1]  Afirmam uns e outros que a despeito do crescente custo que a atividade de pesquisa, desenvolvimento e inovação, tem observado na indústria, atribuindo-se ca. 10-12% do faturamento total o montante de investimentos nesta atividade, não tem havido contrapartida adequada da indústria em termos da capacidade inovadora, quando medida pelo número decrescente de novos fármacos lançados anualmente, na última década especialmente.[1] Esta situação, inversamente proporcional ao aumento do investimento feito nesta atividade, tem suscitado inúmeras explicações e várias razões possíveis. Depois de ler uma enorme quantidade de explicações sobre este fenômeno,[1] que demonstra uma possível e severa crise de criatividade ou competência no setor farmacêutico mundial, passei a monitorar o site da agência regulatória norte-americana,  Food and Drug Administration (FDA) para detectar o número de novos fármacos lançados ao longo de 2012, as classes terapêuticas a que pertencem, o nível de inovação radical que representam, a partir do alvo em que atuam e o mecanismo molecular de ação. Esta análise indicou que, em 2012, foram 39 novos fármacos introduzidos no principal mercado farmacêutico mundial, superando o número de novas entidades químicas introduzidas no ano anterior.[2]Este aumento no número de novos fármacos lançados em 2012, pode sugerir uma possível recuperação na capacidade inovadora das grandes empresas farmacêuticas. Nesta postagem, descrevo alguns novos fármacos que surgiram no mercado em 2012, selecionados dentre aqueles mais inovadores do período.
        Apixaban (EliquisR)
         Apixaban (International Nonproprietary Name; INN) é um anticoagulante, para a prevenção de tromboembolismo venoso e tratamento e prevenção desta doença. Atua como antagonista direto do fator Xa e foi aprovado na Europa desde maio de 2012 e pelo FDA em dezembro do mesmo ano com a indicação de reduzir o risco de coágulos sanguíneos em AVCe embolia sistêmica, em pacientes com fibrilação atrial não provocada por problema na válvula cardíaca.  Este fármaco foi desenvolvido numa joint venture da Pfizer e da Bristol-Myers Squibb, ambas empresas norte-americanas.
          O apixaban (1) tem um padrão molecular inovador, pertencente à classe dos derivados di- hidropirazolo[5,4-c]piridina-3-carboxamida, diferenciando-se de um outro antagonista do fator Xa, anteriormente descrito, o rivaroxabano (2; BAY 59-7939; XareltoR) comercializado pela Janssen Pharmaceutica e pertencente à classe dos compostos oxazolidinodiônicos.
Juxtapid (LomitapideR)
          Em 21 de dezembro de 2012, o FDA (Food and Drug Administration) dos  EUA aprovou juxtapid (3) com a indicação de ser um fármaco antilipêmico capaz de reduzir a lipoproteína de baixa densidade (LDL), colesterol total, apolipoproteína B e não-lipoproteína de alta densidade (não-HDL), em pacientes com homozigose hipercolesterolemia familiar (HFHo). HFHo é uma condição hereditária rara, que faz com que o organismo se torne incapaz de remover o colesterol LDL, muitas vezes chamado de colesterol "ruim", fazendo com que atinja níveis anormalmente elevados deste tipo de colesterol circulante, aumentando o risco de acidentes cardiovasculares.
          Nos Estados Unidos, HFHo afeta cerca de um milhão de indivíduos que têm severamente reduzido a expectativa de vida, sendo que alguns especialistas atribuem o limite máximo de 30 anos de vida. Este fármaco que representa uma inovação terapêutica face à única indicação que tem, sendo recomendado para uso em combinação com dieta de baixo teor de gordura e redução de lípidos. O mecanismo de ação previne a formação das partículas lipídicas que dão origem a LDL. Alguns efeitos adversos identificados referem-se a diarréia, náuseas, vômitos e dor abdominal. O juxtapid é comercializado pela Cambridge, Massachusetts Co e foi desenvolvido pela Aegerion Pharmaceuticals Inc.
Ponatinibe (IclusigR)
          Ponatinibe (4, Iclusig, AP24534) é um fármaco aprovado pelo FDA em dezembro de 2012, pertencente a classe dos derivados imidazo[1,2-b]piridazina, indicado para o tratamento oral da leucemia mielóide crônica (LMC) e leucemia linfoblástica aguda (LLA). É um inibidor multi-alvo de tirosina-quinase (TK). Algumas formas de LMC estão relacionadas a mutação em T315I e se tornam resistentes às terapias atuais realizadas com outros inibidores de TK, como o imatinibe.[3] O ponatinibe foi aprovado para uso por pacientes com LMC resistentes ou intolerantes a outros tratamentos, baseado nos resultados de ensaio clínico de fase II. O alvo principal para ponatinibe é o controle da proteína BCR-ABL, uma tirosina-quinase anormal envolvida na LMC e LLA que caracterizam-se por uma produção excessiva e desregulada de células brancas sanguíneas pela medula óssea devido a uma alteração genética que a produz.[4] Esta proteína é detectada em 95% dos pacientes com LMC que têm sido tratados com o nilotinibe e/ou dasatinibe[4] e também podem se tornarem resistentes.
Tofacitinibe (XeljanzR)
            Tofacitinibe (5, XeljanzR, CP-690550), também denominado tasocitinibe  é um fármaco desenvolvido pela Pfizer de estrutura química extremamente simples, para o tratamento da artrite reumatóide (AR), psoríase, doença inflamatória do intestino e outras doenças inflamatórias crônicas degenerativas de fundo imunológico. Tem sido recomendado também na prevenção da rejeição de órgãos transplantados devido as suas propriedades imunomoduladoras.           
Em novembro de 2012, o FDA dos EUA o aprovou para o tratamento da artrite reumatóide, sendo o primeiro inibidor da quinase Janus 3 (JAK3), o que representa um novo mecanismo farmacológico de ação e portanto uma autêntica inovação terapêutica. Atuando ao nível desta quinase, interfere com a via de sinalização de JAK-STAT, responsável pela sinalização da informação extracelular para dentrodo núcleo da célula, afetando a transcrição do ADN .
            Recentemente, foi demonstrado em modelo murino de artrite que o  tofacitinibepropiciou sensíveis melhoras no quadro artrítico impedindo a produção de mediadores inflamatórios e suprimindo STAT1 notecido articular. Esta eficácia neste modelo de doença, está relacionada com a inibição de duas vias de sinalização, a saber JAK1 e 3, o que sugere a este fármaco um perfil de ação dual que pode ter efeitos terapêuticos altamente benéficos no trtatamento da AR.
            Obrigado por lerem!
_______________________
[1] Mullard A., 2010 FDA drug approvals, Nature Rev. Drug Discov. 2011, 10, 82; Swinney, D.; Anthony, J. How were new medicines discovered? Nature Rev. Drug Discov. 2011, 10, 507; Scannell, J. W. et al., Diagnosing the decline in pharmaceutical R&D efficiency, Nature Rev. Drug Discov. 2012, 11, 191; Pammolli, F. et al., The productivity crisis in pharmaceutical R&D, Nature Rev. Drug Discov. 2011, 10, 428; Paul, S. M. et al. How to improve R&D productivity: the pharmaceutical industry’s grand challenge, Nature Rev. Drug Discov. 2010, 9, 203; Hughes, B. Harnessing open innovation, Nature Rev. Drug Discov. 2009, 8, 344; Munos, B. Lessons for 60 years of pharmaceutical innovation, Nature Rev. Drug Discov. 2009, 8, 959.
[2] Para ler sobre algumas inovações terapêuticas recentes veja a postagem de sexta-feira, 31 de agosto de 2012.
[3] Huang, WS; Metcalf, CA; Sundaramoorthi, R; Wang, Y; Zou, D; Thomas, RM; Zhu, X; Cai, L. et al.,Discovery of 3-2-(imidazo[1,2-b]pyridazin-3-yl)ethynyl-4-methyl-N-{4-(4-methylpiperazin-1-yl)methyl-3-(trifluoromethyl)phenyl}benzamide (AP24534), a potent, orally active pan-inhibitor of breakpoint cluster region-abelson (BCR-ABL) kinase including the T315I gatekeeper mutant". J. Med. Chem. 2010, 53, 4701. [doi:10.1021/jm100395q]
[4] Para ler sobre os tinibes no tratamento do câncer veja a postagem de terça-feira, 5 de junho de 2012.

sábado, 17 de novembro de 2012

A Escola de Verão em Química Farmacêutica Medicinal*

* Realizada pelo LASSBio® / UFRJ desde 1995.

     Esta postagem tratará de documentar, ainda que de forma sumarizada, a história da Escola de Verão em Química Farmacêutica Medicinal (EVQFM) que em 2013 chegará à sua décima nona edição, ininterrupta desde 1995. Trata-se de registrar a motivação e criação desta atividade de extensão, iniciada em 1995, pelo Laboratório de Avaliação e Síntese de Substâncias Bioativas (LASSBioR, www.farmacia.ufrj.br/lassbio) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) que visa atualizar ou reciclar os conhecimentos em uma disciplina essencial ao completo conhecimento dos efeitos dos fármacos e medicamentos.

 
Preâmbulo – O surgimento da Química Farmacêutica Medicinal
      Cabe neste início relembrar as origens da Química Farmacêutica Medicinal e sua missão definida anos após pelo Subcommittee on Medicinal Chemistry and Drug Development da Chemistry and Human Health Division (VII) da International Union of Pure and Applied Chemistry (IUPAC)[1] como: a disciplina que estuda os aspectos relacionados à descoberta, invenção e preparação de substâncias bioativas,de interesse terapêutico, e os fatores moleculares do modo de ação dos fármacos, incluindo a compreensão da relação entre a estrutura química e a atividade (REA ou SAR) terapêutica, absorção, distribuição, metabolismo, eliminação e toxicidade.
      Podemos dizer que a Química Farmacêutica Medicinal nasceu, em 1911, no Instituto Pasteur, mais precisamente no Laboratoire de Chimie Thérapeutique, criado por Ernest Fourneau, sob a direção de Emile Roux. Fundado com a missão de inventar substâncias de interesse terapêutico, neste laboratório Fourneau contou com a colaboração de eminentes cientistas da época como Jacques Tréfouël (1897-1977) e sua esposa Théreze Tréfouël (1892-1978), além de Germaine Benoit (1901-1983), Federico Nitti (1903-1947) e Daniel Bovet (1907-1992), que veio a ganhar o prêmio Nobel de Medicina em 1957 pelo conjunto de seu trabalho realizado com as sulfonamidas, anti-histamínicos e também com o curare. Data desta época, o primeiro trabalho científico que pode ser considerado como tratando da relação entre a estrutura química e a atividade, precisamente em derivados do curare amazônico, estudado por Bovet.[2] Neste laboratório, que se tornou referência da disciplina, foi descoberto o stovarsol (TreparsolR, CAS 97-44-9) como um poderoso agente anti-sífilis. Esta substância contém em sua estrutura um átomo de arsênio oxigenado copiando o fósforo da mesma coluna da Tabela Periódica. Ademais, possui também um grupo N-acetila de uma unidade orto-aminofenol comprovando a tendência à acetilação, então em moda na química orgânica preparativa da época.[3] Curiosamente, à mesma época em que Bovet recebia a honraria máxima em Ciência, o Professor Alfred Burger, da Universidade da Virginia nos Estados Unidos, fundava pela American Chemical Society o atual Journal of Medicinal Chemistry, prestigioso periódico científico da área que surge com a denominação de Pharmaceutical Chemistry Journal, em 1958. O Professor Burger foi o idealizador do livro “Principles of Medicinal Chemistry”, publicado em sua primeira edição neste período e tratando pioneiramente os aspectos moleculares dos fármacos por classe terapêutica. Da combinação das duas escolas, europeia e americana, surge a denominação Química Farmacêutica ou Química Medicinal que no nosso país ficou sendo denominada Química Farmacêutica Medicinal, depois da publicação da “Carta de Goiânia”, elaborada no VII Encontro Nacional de Professores de Química Farmacêutica, realizado na Universidade Federal de Goiás. Considero que nossa denominação para esta importante disciplina das Ciências Farmacêuticas é a mais adequada por representar mais fielmente sua origem.

 

A Escola de Verão em  Química Farmacêutica Medicinal (EVQFM)
 
       Após estes dados históricos iniciais, podemos introduzir os fatores que nos motivaram a criar a Escola de Verão em Química Farmacêutica Medicinal, em 1995, no LASSBio da Faculdade de Farmácia da UFRJ. Há muitos anos antes, por volta de 1970, havia sido oferecida pelo Departamento de Química da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, organizada pelo saudoso Professor Otto Richard Gottlieb (1920-2011) um evento denominado Escola de Verão em Química Orgânica. Nesta Escola, que tive o privilégio de participar, às vésperas da conclusão de meu mestrado, em 1973, tinha duas semanas de duração e participaram estudantes, de graduação ou de pós-graduação, com aulas sobre temas específicos, ministradas por especialistas nacionais e internacionais. Por sua localização geográfica, em Serpédica, RJ, a permanência nas dependências da UFRRJ propiciava aos participantes, contato em tempo integral, o que contribuía para aproximação dos professores com os estudantes. Esta iniciativa foi depois implantada, em 1981, no Departamento de Química da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), catalisada pelo saudoso Professor José Tércio Barbosa Ferreira (1952-1997), que também cursou a Escola de Verão em Química Orgânica da UFRRJ e foi colega do narrador no mesmo departamento onde este atuou após seu doutoramento, no período de 1980 e 1984, quando foi criado o curso de pós-graduação em Química Orgânica da UFSCar.
      O inconteste sucesso das Escolas de Verão em Química Orgânica, em dois momentos distintos, reafirmava sua importância e, por isso, após ingressarmos na Faculdade de Farmácia da UFRJ decidimos reeditar esta iniciativa desta feita voltada para a Química Farmacêutica Medicinal, aproveitando, de um lado o apelo da Cidade Maravilhosa no período de verão e o ócio acadêmico deste período do ano, quando as dependências físicas das IFES ficam subutilizados, durante as férias. Assim que, organizamos, durante o segundo semestre de 1994, a primeira edição da Escola de Verão em Química Farmacêutica Medicinal que ocorreu em janeiro de 1995, já com um formato semelhante ao atual, tendo como missão atualizar e capacitar estudantes de graduação e pós-graduação, assim como profissionais e pós-doutores em temas clássicos e modernos da Química Farmacêutica Medicinal através da oferta de cursos de curta duração, conferências de especialistas nacionais e estrangeiros, além de divulgação dos aspectos mais recentes da disciplina.
       Na figura a seguir está uma cópia do memorando original enviado pelo coordenador à Direção da Faculdade de Farmácia da UFRJ, solicitando o encaminhamento de pedido de apoio financeiro à Fundação Universitária José Bonifácio e informando a criação da EVQFM que contou com o apoio do III Encontro Nacional de Professores de Química Farmacêutica realizado nas dependências da Faculdade de Farmácia da UFMG na avenida Olegário Maciel, em Belo Horizonte, MG.[4]





       Desde aquela época até hoje, decorridos 19 anos, a EVQFM foi oferecida ininterruptamente propiciando a mais de 2200 participantes, nacionais ou não, estudantes de graduação e pós-graduação além de profissionais de diferentes profissões e pós-doutores, oportunidade de atualização com temas clássicos e modernos da Química Farmacêutica Medicinal. O sucesso desta iniciativa pode ser constatado pelos inúmeros profissionais que por adotarem a Química Medicinal, tornaram-se expoentes em suas atividades de docência, de pesquisa e outras relacionadas. Passaram pela EVQFM nestas quase 19 edições mais de 50 pesquisadores internacionais renomados, dentre os quais alguns “descobridores de fármacos” como Robin Ganellin (SK&F), inventor da cimetidina em 1975; Simon Campbell (Pfizer), inventor do sildenafil, em 1991; alem de Jean Cumps (Université de Louvain), Hugo Kubinyi (BASF), Antonio Monge (Universidad de Navarra), Camille Wermuth (Université Louis Pasteur), Mitch A Avery (University of Mississippi), Paul Leeson (Astra-Zeneca), Andy E Greene (Université Joseph Fourrier), Janos Fischer (Gideon), Hugo Cerecetto (Universidad de La Republica) dentre muitos outros.
 
 

 Espero que esta leitura tenha sido prazeirosa e que possa ter sido registro, ainda que breve, da história da Escola de Verão em Química Farmacêutica Medicinal que terá sua 19ª edição no período de 18-22 de março de 2013 e para maiores informações sobre esta edição consultem: http://www.farmacia.ufrj.br/lassbio/xix_evqfm
 
Obrigado por lerem.
 
[1] Vide a postagem de 19/02 do corrente “Sobre as moléculas dos fármacos: os acetatos famosos”.
[2] A Editora da UNB publicou o livro “Vitórias da Química – Daniel Bovet”, que descreve a trajetória científica deste pioneiro da Química Farmacêutica Medicinal.

[3] Descrita em Eur. J. Med. Chem., 31, 747 (1996) e depois comentada em: a) C. R. Ganellin et al., Eur. J. Med. Chem. 35, 163 (2000);  b) A Monge et al., Eur. J. Med. Chem., 35, 1121, (2000)

[4] Cabe mencionar que o primeiro Encontro Nacional de Professores de Química Farmacêutica foi organizado pelo saudoso Professor Andrejus Korolkovas, da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo, SP, em 1975.