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sexta-feira, 10 de abril de 2020

Pequenas moléculas contra SRAS-nCoV-19: remdesivir (RDV)

nCoV-19       
           O impacto dos números de pessoas infectadas pela SRAS-nCoV-19 não para de crescer e no Brasil a pandemia tem se mostrado agressiva com ca. 20.000 (>17% entre 07 e 09 de abril) infectados e 1060 mortos. [link].
    Os esforços em busca de um recurso terapêutico eficaz e seguro contra o nCoV-19 estão mobilizando grande parte da comunidade científica mundial. Alguns indicadores preliminares de sucesso se aproximam e nesta postagem vou tratar de um novo fármaco utilizado contra outras viroses (e.g. Ebola) que se encontra em estudos clínicos para o uso no tratamento da SRAS-nCoV-19. Trata-se do rendesivir (RDV, GS-5734), um novo agente antiviral da classe dos análogos de nucleotídeos modificados. É um análogo de adenosina, onde o sistema N-heterocíclico foi substituído por um anel pirrolo-pirimidínico substituído, atuando sobre RNA-polimerase viral. 
   Este medicamento antiviral foi desenvolvido pela Gilead Sciences (GS), empresa farmacêutica norte-americana com sede na California, descobridora do oseltamivir (TamifluR), um fármaco inibidor de neuroaminidase viral que mimetiza o estado de transição do mecanismo de ação enzimático e que posteriormente foi licenciado para a Roche e utilizado para o tratamento da influenza (H1N1, H3N2). A GS foi também a descobridora de outro antiviral inovador, o sofosbuvir (SovaldiR), inibidor da NS5B polimerase viral, primeiro antiviral com indicação para o tratamento da hepatite-C que se tornou um blockbuster com vendas mundiais na escala de bilhões de dólares anuais contribuindo com ca. 20% do faturamento global da GS, que em 2018, foi de US$ 22,1 bilhões.


   O RDV foi lançado no mercado em 2017, com indicação terapêutica para tratamento da síndrome provocada pelo vírus Ebola e posteriormente, demonstrou atividade contra outros vírus de RNA de fita simples como os vírus respiratórios do grupo do coronavírus (CoV) (e.g. MERS e SARS). 
 Dada a atividade anti-CoV do RDV, demonstrada em estudos pré-clínicos, este fármaco foi avaliado no tratamento de um dos primeiros pacientes com SARS-nCoV-19 nos EUA, utilizado por administração intravenosa [B. Cao, Mild/Moderate 2019-nCoV Remdesivir RCT – Texto em: ClinicalTrials.gov 2020]. Os resultados obtidos foram encorajadores e motivaram estudos clínicos controlados e duplo-cegos com ca. 2700 pacientes adultos, em pelo menos dois estudos [link; link], de maneira a permitir se avaliarem a eficácia e segurança do emprego do RDV, em pacientes hospitalizados com doença respiratória SRAS-nCoV-19 leve, moderada ou severa, em internação com e sem respiração mecânica. Os resultados destes estudos são aguardados para fins de abril com 308 pacientes e para o fim de maio de 2020, com 2400 pacientes.
O RDV é um pró-fármaco nucleotídico, sendo o produto de hidrólise da subunidade monofosforamidato de sua molécula, o monofosfato de nucleotídeo (GS-441524), que uma vez trifosfatado em sua hidroxila primária, representa a entidade ativa contra CoV, via inibição da RNA-polimerase viral.
   Para concluir, vê-se que o RDV, se vier a ser usado para tratamento da SRAS-nCoV-19, representará mais um exemplo de sucesso da estratégia de reposicionamento de fármacos (drug repurposing ou repositioning) e me parece bastante possível que muitas Big-Pharmas possam estar revisitando “suas” moléculas, inclusive de seus pipelines, para investigar eventuais efeitos terapêuticos sobre a SRAS-nCoV-19.   

     
    Obrigado por lerem.