Pretende-se tratar de temas, opiniões, e comentários sobre a Ciência dos Fármacos, seu uso seguro e benefícios à sustentabilidade e qualidade de vida. Privilegiaremos, sempre que possível, aspectos relativos à história da descoberta/invenção (drug discovery - DD) de fármacos, contributivos à formação contínua em aspectos, princípios e fundamentos da Química Medicinal, como disciplina central do processo de DD.
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terça-feira, 25 de abril de 2023
Promovendo a descoberta de fármacos...
domingo, 2 de abril de 2023
Sobre a intuição e a serendipidade em Drug Discovery (DD)
Há algum tempo, trouxe aqui uma conversa
sobre a importância da intuição no processo de inovação terapêutica radical. De
fato, procurei me inteirar sobre os eventuais impactos promovidos sobre o
processo de Drug Discovery (DD), especialmente no desenho molecular de
agentes terapêuticos de diferentes classes agindo por distintos mecanismos
farmacológicos de ação. Curiosamente, esta postagem datada de 09 de junho de
2019 (Link), intitulada
“Intuição em Química Medicinal”, originou uma publicação - Chemical
Intuition in Drug Design and Discovery-
na revista Current Topics in Medicinal Chemistry, 19, (15),
1679-1693 (2019) (DOI) que
procurava identificar a motivação da decisão dos químicos medicinais em momento
anterior ao avanço da estratégia de desenho molecular baseado na estrutura do
alvo terapêutico (SBDD – structure based drug discovery) quando, por
exemplo, o grupo de pesquisadores liderados por Black e Ganellin identificaram
a estrutura privilegiada da imidazola como anel central diaza aromático da
cimetidina, em analogia ao ligante natural dos bioreceptores histaminérgicos do
sub-tipo 2. Na mesma linha e talvez mais intuitivo ainda, tenha sido a eleição do anel central substituído
do indol no desenho da indometacina, por Shen e colaboradores nos laboratórios
Merck-Sharp Dohmme (MSD), como o primeiro agente anti-inflamatório
não-esteroidal (NSAI) atuando como inibidor da ciclooxigenase-1, da classe dos
ácidos heteroarilacéticos substituídos. Não foi que pela intuição de Bruce
Roth, instigada por sua experiência doutoral na síntese de derivados pirrolícos
polisubstituídos, que a equipe dos laboratórios Warner-Lambert incluíram este núcleo
na atorvastatina, agente antilipêmico primeiro-da-classe das estatinas, inibidores
da 5-HMGCo-A redutase, que foi o fármaco mais vendido mundialmente na história.
Estimam os especialistas que este fármaco, recordista mundial em vendas, proporcionando
ca. US$ 125 bilhões de dólares à Pfizer, durante o período de proteção
patentária esgotado em 2011, ano em que seu faturamento foi de US$ 11 bilhões.
Nesta postagem procurei confrontar os termos intuição versus serendipidade, através fármacos que considero consensual admitir serem mais relacionados a cada um, onde a penicilina ilustrou a serendipidade e a atorvastatina, cimetidina e indometacina, fármacos aza-heterocíclicos sintéticos, a intuição, i.e. intuition-based drug discovery (IBDD). Por fim, considero que teremos mais exemplos de serendipidade em fármacos relacionados aos produtos naturais, enquanto a abordagem IBDD se relaciona mais aos fármacos sintéticos.
Obrigado por ler.
1. Para uma revisão atual dos
avanços observados nesta classe de medicamentos, sob o olhar da Química Medicinal, veja: L M Lima, B
N M Silva, G Barbosa, E J Barreiro, β-lactam antibiotics: An overview from a medicinal
chemistry perspective, Eur J Med Chem 2020, 208, 112829; DOI:10.1016/j.ejmech.2020.112829.
quinta-feira, 9 de março de 2023
Sobre o ”efeito metila” na Química Medicinal, 10 anos depois....
As publicações científicas refletem a produtividade que se pode aferir
de pesquisadores, individuais ou por grupos de pesquisas. Está métrica de
produção, pode ter um olhar quantitativo e qualitativo. O número absoluto
determina a medida quantitativa, enquanto que o seu conteúdo, pode ser obtido qualitativamente,
pela determinação de quantos outros pesquisadores se interessaram pelo artigo,
representando o índice de impacto daquela publicação, viz-à-viz a comunidade
científica. Desta forma, cada pesquisador, autor de um artigo, pode retraçar os
caminhos feitos pelos olhares dos pares sobre sua própria produção científica.
Eu estaria faltando em franqueza, se não registrasse que é muito possível que
um autor de várias publicações científicas possa ter preferências confessas
para com algumas. Dentre as preferidas, haverá aquelas que ainda são de maior
destaque. Minha primeira publicação, de lá dos idos de 1973, na Revista
Brasileira de Farmácia, da Associação Brasileira de Farmacêuticos
(ABF), descreveu o conteúdo de uma breve revisão bibliográfica sobre a síntese
estereoespecífica de olefinas, realizada enquanto era aluno de mestrado em
Química de Produtos Naturais, do Centro de Pesquisas em Produtos Naturais
(CPPN), da Faculdade de Farmácia da Universidade Federal do Rio de Janeiro
(UFRJ). Aliás, é válido registrar que naqueles tempos, as editorias das publicações
nacionais eram bem flexíveis quanto às suas exigências, sendo possível
apresentarem-se estruturas químicas desenhadas, sem a obrigatoriedade do uso de
templates.
Dentre minhas publicações de preferência, encontram-se algumas com os
melhores índices de citações como, por exemplo, “The methylation effect in
medicinal chemistry” (Figura 1), publicada em 2011, no Chemical Reviews (111, 9, 5215-5246, 2011) da American Chemical Society (ACS), que tem nesta data ca. 616 citações,
das 16.122 acumuladas por todas minhas publicações até hoje. Este artigo
evidenciou-me a importância da citação como índice do impacto que a leitura por
pares trás para valorizar uma publicação, assim como também evidenciou-me a
relevância de quem o citou. Me explico: uma forma possível de ampliar a credibilidade
científica da publicação e representar um mecanismo efetivo para sua promoção e
ainda, por sua vez, ampliar o ciclo virtuoso que pode se criar em torno dela, é
ter sido citada por pesquisador de prestigio na área, em boa revista científica.
Por estas e outras tantas razões, esta
publicação – o efeito da metila em Química Medicinal – sempre foi uma de minhas
preferidas, mais ainda quando foi tema do seminário de abertura do Programa de
Webináios do LASSBio 2023, apresentado, brilhantemente, na tarde de 06 de
março, pelo Professor Carlos Alberto Manssour Fraga. Nesta tarde tive o
privilégio de assisti-lo, em regime remoto, testemunhando uma versão “nova” do
artigo, formatada para ilustrar sua importância ao olhar do Químico Medicinal
moderno. Neste objetivo, foi o Professor Manssour muito feliz, como o fora em
todos os outros pontos tratados no webinário, ao enfatizar, através da
bibliografia apresentada, aspectos específicos que a introdução de um
grupamento metila pode trazer a uma molécula em termos da atividade terapêutica
e de algumas de suas propriedades físico-químicas, farmacocinéticas e
farmacodinâmicas, além da possível interconversão de grupos funcionais (e..g.
ácido a éster; álcool primário a éter alquilíco, entre outros). Um aspecto
interessante que foi ressaltado naquele webinário, disse respeito ao fato de
que foi esta publicação a primeira realizada por pesquisadores fluminenses no
ACS-Chemical Reviews, outros aspectos que merecem destaque são que ca. de 30%
das citações desta publicação, tenham ocorrido em artigos do Journal of Medicinal
Chemistry e que, na maioria dos casos, nossa revisão tenha sido usada como background
para os trabalhos publicados.
domingo, 5 de fevereiro de 2023
Química Farmacêutica Medicinal - Conhecem?? É o nosso novo livro!!!
sábado, 28 de janeiro de 2023
Sobre minha palestra "A Química Medicinal e eu..." na XXIX EVQFM-EB (26.01.2023) - Parte 1
Salve pessoal!
Olá, estou começando uma série de postagens sobre esta minha palestra
A química medicinal e eu...Pretendo ir detalhando-a em 3-4 partes, para complementar o que não deu prá colocar na fala!
Aguarde!!
Saudações e abraços,
Obrigado por ler!!!
sexta-feira, 20 de janeiro de 2023
Sobre o Pavlovid®, medicamento anti-SARSCo-V-2 desenvolvido em 2021
O complexo processo de descoberta/invenção de novos
fármacos (drug-discovery – DD) é dependente de interações
multidisciplinares, onde sobressaem a Química Medicinal e a Farmacologia.
Outras disciplinas como a Química Computacional e a Farmacologia Molecular,
aliadas a técnicas de inteligência artificial onde várias abordagens são
capazes de modelarem sistemas biológicos complexos como entende-se ser o
processo de DD.
Em
meados da década de 80 do século passado, iniciaram-se os estudos de modelagem
molecular aplicados à descoberta de fármacos, quando dois paradigmas principais
ocupavam a cabeça dos Químicos Medicinais de então. A identificação de
compostos com propriedades atraentes como fármacos, se dava a partir da
abordagem que veio a ser denominada desenho de fármacos baseado na estrutura
química do biorreceptor (SBDD, do inglês: structure-based drug discovery)
ou em contraste a esta, aquela baseada na estrutura do substrato natural ou do
agonista do biorreceptor (LBDD, do inglês: ligand-based drug discovery).
A partir daí outras siglas surgiram, referindo-se a ajustes finos destas acima mencionadas,
como FBDD, referindo-se a abordagem de fragmentos moleculares (do inglês: fragment-based
drug discovery). Considera-se como fragmento molecular, estruturas ou subestruturas
químicas com até 300 Da de massa molecular, que podem ser utilizados combinando-se
técnicas in sílico ou in vitro, fazendo-se estudos de ancoragem virtual (virtual
docking) e mesmo determinando constantes de afinidades (Ki),
para vários possíveis alvos terapêuticos. Inúmeros autores têm descrito resultados
da aplicação destas estratégias para a identificação de autênticos e inovadores
compostos protótipos de novos fármacos. Na sequência deste processo de DD, a
otimização das propriedades físico-químicas, através da introdução de novas
modificações moleculares racionais, capazes de ajustarem de maneira adequada a
fase farmacocinética destes protótipos, podem, após bioensaios precoces de
toxicidade aguda (e.g. cardiotoxicidade), subsidiarem a etapa de importantes tomadas
de decisão sobre o prosseguimento ou não (em inglês: go-no go), dos
estudos com uma dada molécula candidata a fármaco.
A
descoberta do Pavlovid®, resultou
da combinação de dois anti-virais: nirmatrelvir (PF-007321332; Pfizer) com ritonavir
(Norvir®, AbbVie;). O primeiro surgiu na Pfizer pela otimização molecular de
uma substância inédita de propriedade da empresa, desenvolvida para combater a síndrome
respiratória aguda e severa provocada por coronavírus (SARS-C) enquanto o
segundo, que foi desenvolvido como um inibidor de protease do HIV e tem sido
bastante estudado inclusive quanto a diferença de absorção demostrada entre
formas farmacêuticas orais distintas, devido a existência de polimorfismo conformacional
que afeta sua biodisponibilidade. Este novo medicamento Pavlovid® é um exemplo marcante da capacidade criativa dos
químicos medicinais contemporâneos, hábeis em conciliarem e ajustarem as técnicas
disponíveis para o desenho e modificações moleculares de compostos candidatos a
novos fármacos, com surpreendente presteza sem prejuízos à segurança do uso.
Resultados
disponíveis na literatura científica, indicaram o benefício do emprego do
Pavlovid® no combate à Covid-19, inclusive em pacientes com
diagnóstico positivo recente.
Obrigado por ler.
·
Leitura
complementar:
·
Para um
post do autor sobre o assunto em: Blog “De fármacos e suas descobertas”,
intitulado “Nirmatrelvir, anti-viral com indicação para o SARS-CoV-2”, datado
de 28 de dezembro de 2021, vide: http://ejb-eliezer.blogspot.com/2021/12/nirmatrelvir-anti-viral-com-indicacao.html
·
Kempf DJ, Sham HL, Marsh KC,
Flentge CA, Betebenner D, Green BE, et al. (February). "Discovery of
ritonavir, a potent inhibitor of HIV protease with high oral bioavailability
and clinical efficacy". Journal of Medicinal Chemistry, 1998, 41 (4): 602–617. doi:10.1021/jm970636
quarta-feira, 21 de dezembro de 2022
Etapas de otimização molecular em Química Medicinal.
A aproximação de um novo ano sempre nos leva a rever as metas previstas e avaliá-las quanto à sua exequibilidade. Muitos de nós – e eu me incluo – fazem promessinhas e promessas. As primeiras apenas para figuração e as últimas para valer! Curiosamente, as primeiras, sempre, são mais numerosas do que as últimas, assim como as contusões durante uma partida de futebol, da Copa ou não, sempre doem mais nos jogadores com vantagem no placar! Comigo a aproximação da virada do ano sempre me leva a pensar que mais uma edição da Escola de Verão em Química Farmacêutica Medicinal se aproxima. Chegaremos, em 2023, à 29ª edição ininterruptas com o formato clássico das edições presenciais mantido, adotando-se uma versão híbrida com atividades presenciais e remotas em algumas poucas atividades, de forma a facilitar a participação de pessoas que por motivos de saúde, por exemplo, tenham restrições de mobilidade ou que sejam muito vulneráveis em condições de convívio aglomerado, face a situação de contágio pela cepa do vírus transmissor da Covid-19.
Nesta 29ª edição, infelizmente, não ministrarei nenhum minicurso
inédito, como tenho feito nas mais recentes edições: e.g. Desenho de fármacos
baseado em fragmentos moleculares; Bioisosterismo; Grupos funcionais e o
desenho de fármacos; A importância dos produtos naturais para a Química
Medicinal, entre outros.
A Figura abaixo ilustra um dos paradigmas vigentes na Química
Medicinal, dentre eles a importância da etapa de otimização molecular
de um novo composto hit, que evolui a um novo ligante por meio de
bioensaios de validação (e.g. binding), seguido de avaliação in vivo ou
em modelos fenotípicos capazes de confirmarem seu potencial terapêutico efetivo
e a ausência de propriedades tóxicas.
Uma vez identificado um ligante
do alvo terapêutico eleito, a etapa subsequente consistirá na introdução de
novas modificações moleculares racionais, planejadas para otimizarem-se as
propriedades e afinidade molecular, a partir da construção de uma série
congênere de compostos, que permita a compreensão da relação estrutura química
e atividade (SAR), assim como as distintas contribuições farmacofóricas
envolvidas no reconhecimento molecular pelo alvo. Neste momento, um novo ciclo
de bioensaios se iniciará. Os derivados que não apresentarem melhor afinidade pelo
alvo, após estas modificações moleculares, poderão ser uteis como padrões comparativos
negativos no entendimento da SAR. A figura também inclui um caminho envolvendo
ensaios in vitro e in sílico do eventual potencial cardiotóxico, a partir da determinação
da afinidade ou sua predição pelos canais hERG (do inglês: human Ether-à-go-go-Related Gene).
Espero ter trazido nesta
postagem, uma visão sobre a hierarquia da terminologia rotineiramente empregada
nos distintos estágios de otimização de hit a ligante (H2L) e
de ligante ao composto-protótipo de novo fármaco (L2L).
quinta-feira, 8 de dezembro de 2022
Boas Festas e Feliz 2023
quinta-feira, 29 de setembro de 2022
A estereoquímica e a Química Medicinal
(Parte 2)
A
indometacina pode ser considerada a pequena molécula pioneira dentre os AINE´s.
Descrita em 1972, por Shen e colaboradores dos laboratórios MSD foi objeto de estudos
de otimização molecular que levaram à troca bioisostérica clássica de anel
heterocíclico por um anel naftila, resultando no sulindaco. Esta molécula veio
a ser um segundo fármaco AINE, também ativo com o perfil de pró-fármaco, sendo
o eutômero aquele diastereosiômero de configuração -(E).
A
racionalização dos efeitos apresentados para o (E)-sulindaco foi
explorada por Shen e colaboradores, considerando aspectos de similaridade
molecular dentre a conformação bioativa da indometacina e o isômero (E)-
mostrado na figura abaixo.
Obrigado
por ler.
domingo, 19 de junho de 2022
A estereoquímica e a Química Medicinal (Parte 1)
Ao participar do 16º Webinário do INCT-INOFAR, apresentado pela Professora Lídia M. Lima do LASSBio, ICB-UFRJ, recentemente e intitulado “Perspectivas do estudo do metabolismo em projetos de descoberta de fármacos” (YouTube), pude relembrar alguns aspectos bastante interessantes e ilustrativos de como a estereoquímica é importante, também, para o pleno conhecimento das propriedades moleculares dos compostos protótipos ou candidatos a novos fármacos, na definição e compreensão de comportamento nas fases farmacodinâmica (PD) e farmacocinética (PK). São estas considerações que decidi compartilhar com vocês aqui, desta vez.
O estudo da estereoquímica parece ser um capítulo ansiogênico aos estudantes de Química Orgânica. Talvez pudéssemos “brincar” comparando os efeitos estéricos das moléculas estudadas, aos sobressaltos histéricos provocados nos estudantes. Não é um fenômeno novo, não! Saibam que “desde meu tempo” - e haja tempo nisso - os fatores estéricos eram “temidos” pelos estudantes e não fui exceção deste caso. Minha solução foi simples. Estudei mais, com muito mais atenção e fiz voluntariamente, todos exercícios do livro texto que era adotado pelo saudoso Professor Zalmin Lambert da Faculdade de Farmácia da UFRJ, lá pelos idos de 1970. Tratava-se do livro “Organic Chemistry” dos autores R. T. Morrison e M. Boyd, cuja primeira edição datava da época editado pela editora Alyn & Bacon e tinham várias cópias disponíveis na biblioteca da Faculdade. Para mim tinha um contrapeso a mais, além da dificuldade natural da estereoquímica per-se..., o livro era TODO em inglês e eu era daqueles que precisava do dicionário para entender as difíceis palavras com mais de duas letras, assim como AND...!! Mas de verdade as dificuldades me fortaleceram e aprendi bastante naqueles tempos de graduação, graças à qualidade e dedicação dos saudosos mestres que tive, a quem devo todo meu aprendizado.
Obrigado por lerem.
quinta-feira, 9 de junho de 2022
A disciplina de Química Medicinal precisa de mais disciplina......
Há algum tempo postei aqui as dificuldades de como se eleger temas atraentes e merecedores de serem tratados aqui e lidos por vocês. Pode parecer simples, mas de fato não é. Mesmo se considerarmos os tempos atuais, em que os especialistas dizem que com a profusão de revistas científicas novas, que surgem quase que diariamente em todas as áreas, de acesso livre e com apelos gráficos excelentes, temos cada vez menos tempo para leituras de cada vez mais, muito mais, material! Talvez o que nos esteja faltando seja o mais precioso dos bens contemporâneos: tempo!! Para otimizá-lo necessitamos de muita disciplina e é isso que entendo está em falta na nossa disciplina: a Química Medicinal!
Senão
vejamos! Identifiquei em muitas leituras disciplinadamente feitas recentemente,
o uso equivocado de termos estrangeiros modernos, completamente desapropriados
às suas finalidades conceituais, e mesmo sem definições precisas, por autores por
pura motivação marqueteira com a intensão de incluir um certo “read appeal”
a publicações medíocres, de difícil leitura rotineira. Em português,
constatamos o uso de temos equivocados em apresentações públicas e em
publicações no vernáculo. Algumas vezes com significado dúbio pelo seu emprego
por diferentes disciplinas. Neste caso considero o uso da palavra droga! Claro
que em idiomas científicos consolidados referem-se usualmente as substâncias “do
bem”, i.e. medicamentos (pharmaceuticals) e não às drogas ilícitas “do
mal”, que infelizmente existem. Entretanto, o uso comum deu a esta palavra no
nosso idioma uma conotação principal pera as últimas. Afinal neste particular
as mídias estão mais ativas por retratarem nosso cotidiano urbano e o termo aparece
em todo telejornal e em muitas outras mídias. Assim que, quando um(a) farmacologista
o emprega ele(a) está se referindo àquelas “do bem”, certamente. Entretanto, entendo
eu que não fica preciso quando não esteja se referindo a um determinado fármaco.
Creio que o melhor a fazer é adotar sempre os termos de Química Medicinal que estejam no Glossário publicado pela IUPAC (D. R. Buckle, P. W. Erhardt, C. R. Ganellin, T. Kobayashi, T. J. Perun, J. Proudfoot, J. Senn-Bilfinger, Glossary of terms used in medicinal chemistry. Part II (IUPAC Recommendations 2013), Pure Appl. Chem., Vol. 85, No. 8, pp. 1725–1758, 2013; [Link]
Neste caso, estarão respaldados pelas definições precisas construídas por especialistas experientes dos seus comitês científicos. Assim procedendo evitamos propagar “fake-scientific terms”, seja por ignorância, seja por ingenuidade e talvez ainda, por necessidades outras.
Um exemplo “clássico” dos erros mais
comuns está no emprego do termo hit ao invés de ligante! O Glossário de Química
Medicinal da IUPAC em sua segunda edição define:
71. hit - Molecule that produces reproducible activity
above a defined threshold in a biological assay and whose structural identity
has been established.
Note: This methodology
permits the identification of additional hits and new scaffolds and develops
structure–activity relationships around existing hits.
portanto
não é correto se referir a um composto que se liga a um alvo virtualmente como
um hit pois não há resultado de “binding” feito para sua validação e de fato apenas
pode ser considerado um candidato a ligante do alvo em tela.
A Figura a seguir ilustra o nível hierárquico
que devemos adotar para nos referirmos corretamente a hit, ligante, protótipo e
fármaco. O primeiro origina-se de um screening cego, inclusive virtual; o
segundo já foi avaliado por bioensaios e confirmou a sua afinidade pelo alvo
identificado no hit, em geral numa concentração inferior a 10 mM; o terceiro já passou por prova de
conceito e teve sua estrutura química otimizada (PD/PK) e seus eventuais efeitos
tóxicos drásticos precocemente avaliados (hERG), quando possível.
Obrigado por lerem.
segunda-feira, 30 de maio de 2022
Salve, pessoal!
Tratei na última
postagem da XXVIII Escola de Verão em Química Farmacêutica e Medicinal (EVQFM)
que já terminou, assim como a própria estação. Iniciamos o outono e ainda não
dei as caras para prestigiar a blogosfera e portanto, devo algumas explicações
a vocês.
Ocorreram alguns
imprevistos que não me permitiram priorizar a redação do post usual após o
término de uma edição da EVQFM, tratando de uma breve autoavaliação. Posterguei
e no final das contas ficou extemporâneo para falar disso. Na verdade, teria
dito que a XXVIII EVQFM cumpriu e atendeu às expectativas, considerando
inclusive as avaliações dos inscritos, ainda que tenha sido na modalidade
remota. Aliás, já iniciamos as tratativas para a XXXIX EVQFM que ocorrerá no
período de 23 a 27 de janeiro de 2023, de forma presencial e com uma parte
remota, projetada in locco para os inscritos presenciais. Novidades
sobre isso em breve, aqui!
Esta postagem
será a primeira que faço na condição de servidor público do sistema federal de
ensino superior inativo. Isso quer dizer, aposentado!! Ingressei na
Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) no dia 24 de maio de 1994 e conclui
minhas atividades enquanto servidor ativo em 23 de maio e 2022, aos 75 anos.
Neste período se passaram 13.878 dias, que ocuparam 37 anos 11 meses e 30
dias!!! Se incluo o tempo que dediquei, no início de minha carreira, à Universidade
Federal de São Carlos (UFSCar) atingi 15.400 dias, de atividades docentes em
IFES no Sudeste do País!
Considero o saldo muitíssimo positivo e embora não vá discorrer agora
sobre esta trajetória, tendo orientado/co-orientado mais de uma centena de
pós-graduandos e IC’s e supervisionado dezenas de pós-doutores, muitos dos
quais dedicam-se hoje à mesma atividade, creio ser possível e justo considerar
esta comprida missão, bem cumprida! Registro aqui meus agradecimentos a cada um
pela confiança e pelo trabalho realizado.
segunda-feira, 24 de janeiro de 2022
Sobre a 28a Escola de Verão em química Farmacêutica Medicinal (EVQFM) - 25-28/01/2022
Chegamos à 28ª edição da Escola de Verão em Química Farmacêutica Medicinal (EVQFM), após 28 anos ininterruptos de sua realização. Teremos nesta edição, que se inicia, amanhã, dia 25 de janeiro e termina em 28/01, a segunda de forma virtual, por força das circunstâncias sanitárias deste trágico momento de Covid-19, infelizmente ainda pandêmica.
Teremos nesta segunda edição virtual uma programação mais próxima da
clássica presencial, com o mesmo número de minicursos, i.e. cinco, sendo os
clássicos tratando da INTRODUÇÃO À QUÍMICA MEDICINAL, ministrado pelo Professor
Carlos Alberto Manssour Fraga ( Professor Titular, LASSBio, ICB, UFRJ) e METABOLISMO
DE FÁRMACOS, pela Professora Lídia Moreira Lima (Professor Titular, LASSBio,
ICB, UFRJ, Brasil). Ainda entre os minicursos ditos clássicos teremos o de MODELAGEM
MOLECULAR APLICADA À QUÍMICA MEDICINAL, oferecido pelo Professor Carlos
Maurício R. Sant’Anna (Professor Titular, Instituto de Química, Universidade Federal
Rural do Rio de Janeiro -UFRRJ, Seropédica, RJ, Brasil). Fechando o cardápio de
minicursos, teremos o de ATUALIDADES EM QUÍMICA MEDICINAL, ministrado pelos
Professores Carmen Gil (Consejo Superior
de Investigaciones Científicas (CSI) , Madrid, Espanha), Madalena M. Pinto, (Professora
Catedrática, Faculdade de Farmácia, Universidade do Porto, Portugal) e Luiz
Carlos Dias, Professor Titular, Instituto de Química – UNICAMP, Brasil) e
finalmente o minicurso inédito que oferecerei tratando das ESTRUTURAS
PRIVILEGIADAS NO DESENHO DE FÁRMACOS (Professor Eliezer J. Barreiro, Professor Titular,
LASSBio, ICB, UFRJ).
Seguindo, ainda, o clássico formato presencial, esta segunda edição
remota, terá quatro conferências, a saber: Conferência 1, ALVEJANDO O
METABOLISMO DO FERRO PARA A VETORIZAÇÃO SELETIVA DE FÁRMACOS: UMA ESTRATÉGIA DE
QUÍMICA MEDICINAL, Professor Rui Moreira, Professor Catedrático, Faculdade de
Farmácia, Universidade de Lisboa,, Portugal; Conferência 2: THE TRES CANTOS
OPEN LAB, ENABLING INNOVATION FOR UNDER-RESEARCHED INFECTIOUS DISEASES, Dr.
Félix Calderón, GSK, Tres Cantos Open Lab Head, Espanha; Conferência 3: DESAFIOS
NA BUSCA POR NOVOS INIBIDORES DE CINASES PARA O TRATAMENTO DE DOENÇAS ORFÃS,
Professor Dr Carlos Alberto Manssour Fraga, LASSBio, ICB, UFRJ, Brasil;
Conferência 4: HARNESSING STRUCTURAL COMPLEXITY TO GAIN EFFICACY IN
ALZHEIMER’S DISEASE TREATMENT, Professor Diego Muñoz-Torrero, Associate
Professor, Faculty of Pharmacy and Food Sciences, University of Barcelona,
Espanha.
Cabe destacar que as conferências são de acesso livre para todos, mesmo
sem ter havido a inscrição formal na EVQFM.
A trajetória das 28 edições da EVQFM já contou, até aqui, com mais de 2500 participantes, do País e do
exterior. Teve ca. 230 palestrantes, oriundos de diversos estados
brasileiros e de diferentes países, assegurando o caráter internacional desta
iniciativa patrocinada pelo LASSBio. que foi o berço da EVQFM.
Para concluir este registro neste
blog, quero ressaltar que mais do que apenas aprendizado ou atualização em vários
aspectos da Química Medicinal (MedChem), a EVQFM propicia aos participantes
acesso a outros profissionais acadêmicos ou não que contribuem para um período
de convívio, ainda virtual nesta edição, que seguramente será estimulante e, espero
fortemente, suficiente para consolidar, qualificar, aprimorar e despertar
vocações.
Que venha a 28ª EVQFM, saudando a
todos e pedindo passagem!!
Obrigado por lerem.
terça-feira, 28 de dezembro de 2021
Nirmatrelvir, anti-viral com indicação para o SARS-CoV-2
Nestes derradeiros dias de 2021, ano de marcas trágicas provocadas pela Covid-19, é alvissareiro saber que a indústria farmacêutica (IF) que se baseia fundamentalmente em Ciência, inventou um fármaco com propriedades anti-SARS-CoV-2.
Este tema me pareceu merecedor desta postagem, por
sua importância e por evidenciar a capacidade inovadora da IF face ao desafio
colocado pela Covid-19.
Figura 1 – Combinação de fármacos do PaxlovidR
A identificação do
nirmatrelvir como um inibidor irreversível de
SARS-CoV-2 MPRO ilustra o uso, com sucesso, de estratégias da
Química Medicinal para a descoberta de um protótipo, sua otimização pelo ajuste
de fatores moleculares capazes de modularem suas propriedades físico-químicas
que regulam a possibilidade de administração oral (e.g. solubilidade aquosa) e
permeação por membranas e sua eficácia, traduzida pela maior afinidade pelo
alvo terapêutico. Neste caso, a partir da estrutura 3D do alvo a proteína CL-MPRO
do SARS-CoV-2, onde se lograram identificar amino-ácidos chaves no reconhecimento
molecular de hits iniciais, como a glutamina (Gln-163) que demonstrou
interagir com uma subunidade pirrolidona presente em alguns hits. A
modificação de unidades peptídicas, alteradas pelo aumento de lipofilicidade
como análogos bicíclicos de prolina, onde o fragmento pirrolidinona foi
incluído em sistemas bicíclicos do tipo 2-azabiclico[3.1.0]hexano dimetilado, viabilizaram
a obtenção de ligantes de maior afinidade e com lipofilicidade ajustada. A modulação
de sítios reativos (warhead) com a Cys-185 da protease viral, variando
entre aldeído, presente em GC373, e modificada para nitrila do nirmatrelvir,
viabilizaram a identificação de ligantes adequados que foram otimizados
consecutivamente, combinando trocas bioisostéricas clássicas de anéis
aromáticos ou pela adoção de scaffolds presentes em outros inibidores de
proteases virais conhecidos. Esta abordagem tipicamente de Química Medicinal
permitiram o uso oral do nirmatrelvir que teve sua posologia melhorada pela coadministração
com o ritonavir, previamente desenvolvido como inibidor de aspartil-protease do
HIV.
A Figuras 2, a seguir,
ilustra a gênese do nirmatrelvir, enquanto que as Figuras 3 e 4 ilustram o
nucleófilo viral, representado pela Cys145 do sítio catalítico e a estrutura do
aduto covalente formado entre o fármaco e a SARS-CoV-2 CL MPRO.
Obrigado por ler.














