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sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Linha do tempo da Química Medicinal: assim nascem os fármacos



A Química Medicinal ou Química Farmacêutica é matéria interdisciplinar, dedicada à invenção ou descoberta de novos fármacos. É capaz de tratá-los e compreendê-los a nível molecular, inclusive quanto às distintas contribuições de cada subunidade estrutural à atividade farmacológica e às eventuais propriedades toxicológicas. Considerando que a memória é importante atributo para a compreensão de fatos ocorridos em determinados momentos precisos e que contribuí para o pleno entendimento do estágio atual de uma Ciência e suas tendências futuras, ao traçarmos sua cronologia, através de uma linha do tempo, que não pode deixar de ser arbitrária, entendemos melhor suas origens e aprimoramos nossa capacidade prospectiva. A Figura acima ilustra a Linha do Tempo da Química Medicinal, segundo minha perspectiva e possamos a comentá-la a seguir.

Esta Linha do Tempo da Química Medicinal se inicia pela descoberta do ácido acetilsalicílico (AAS) por Felix Hoffmann, na Bayer, ao final do século XIX. Foi o AAS o primeiro fármaco produzido industrialmente para este fim, podendo, pois, ser o marco inicial desta Linha do Tempo da Química Medicinal. Nas primeiras cinco décadas do século XX tivemos marcantes contribuições científicas de eminentes pesquisadores que foram responsáveis pela construção do primeiro paradigma do que viria a ser a Química Medicinal. Sem nos determos na análise da evolução da Química Orgânica per-se, neste período, identificamos o primeiro Nobelista orgânico, Emil Fischer, 1902, que cunhou o modelo “chave-fechadura”, observa-se que aí nasce a base da Química Medicinal no que se refere a compreensão das interações fármacos-biorreceptores e surge o modelo que fundamentou a concepção de complementaridade molecular que precedeu as bases do reconhecimento molecular do fármaco pelo biorreceptor. Na mesma época outro Nobelista, Paul Ehrlich, 1908, criador do fármaco SalvarsanR indicado para tratamento da sífilis cria a teoria da “bala mágica”, ao afirmar que para cada doença, um fármaco. Estas duas concepções foram mutua e reciprocamente influenciadas e por isso podemos considerar como o primeiro paradigma da Química Medicinal este de Fischer-Ehrlich. Este paradigma governa a concepção da ciência da descoberta de fármacos ao longo do século XX, tanto em laboratórios de pesquisa acadêmicos como industriais. Todos os cientistas envolvidos nesta atividade buscam moléculas que apresentem elevada seletividade pelo alvo-terapêutico.


Na sequência, incluímos as marcantes contribuições de John Dale, farmacologista que no fim da primeira década do século passado que estudou largamente os efeitos adrenérgicos dos alcalóides do Ergot e criou as bases dos sub-tipos de biorreceptores posteriormente caracterizados, em 1948, por Raymond Ahlquist nos laboratórios de Farmacologia da Escola de Medicina da Universidade da Georgia, EUA. Foi devido aos trabalhos independentes destes dois pesquisadores que a possibilidade de intervenção terapêutica seletiva para o controle da hipertensão arterial, seguindo paradigma de Fischer-Ehrlich, foi postulado por Sir James Black que logrou a descoberta do propranolol, em 1964. Como curiosidade vale registrar que esta substância era conhecida e descrita na literatura, mas seu uso como primeiro bloqueador seletivo de receptores beta-adrenérgicos representou autêntica inovação terapêutica com repercussões significativas na redução da morbidade e mortalidade desta doença crônica não transmissível de elevado impacto epidemiológico.


Em 1911, o diretor do Instituto Pasteur, Emile Roux, convida Ernest Fourneau para criar um laboratório de química visando obterem-se novas substâncias de interesse farmacológico no Instituto. Forneau aceita o desafio e cria o Laboratoire de Chimie Therapeutique, primeiro laboratório de Química Medicinal, onde trabalharam nas três décadas seguintes vários eminentes pesquisadores como Jacques Tréfouël, Thèrese Tréfouël, Germaine Benoit, Frederico Nitti e, destacando-se Daniel Bovet, que alcança o prêmio Nobel de Fisiologia e Medicina em 1957 pelos trabalhos realizados com receptores histaminérgicos. No mesmo laboratório nascem as sulfonamidas, a partir dos estudos do grupo liderado por este pioneiro da Química Medicinal sobre o prontosil rubrum que havia sido identificado em 1935, na Alemanha, por Gerard Domagk, bacteriologista que foi diretor do Laboratório de Bacteriologia e Patologia Experimental da Bayer e foi premiado com o Nobel de Medicina em 1939, tendo sido impedido pelo estado nazista a recebê-lo.

O nascimento da penicilina iniciará a próxima parte desta Linha do Tempo da Química Medicinal.

Obrigado por ler.